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A ética segundo Gregory House I

Outubro 8, 2008

Nos últimos dias, concluí que os doze meses de aula de ética jornalística cursados na faculdade não valeram sequer um capítulo da série House. Em exatos 43 minutos, o médico especialista em diagnósticos e sua equipe nos fazem pensar muito mais em ética do que as elucubrações desvirtuadas do meu antigo professor. A história é simples e sempre a mesma: um paciente chega ao hospital, ninguém sabe o que ele tem e a equipe de House precisa descobrir a doença para curá-lo.

A frase principal da série, repetida incontáveis vezes, é que todo mundo mente. Nenhuma teoria sobre ética pode prescindir dessa máxima: se existe uma verdade universal é a de que todos nós mentimos. House, o homem que criou a expressão, também mente, com a diferença de não se culpar por isso e de ser franco ao falar sobre o assunto. Sua ética é baseada, primeiramente, em uma visão pessimista, realista e concreta da realidade. A partir daí, ele se afasta de contatos sociais íntimos e age exatamente de acordo com o que acredita. Sua visão do concreto, pouco deturpada por influências sociais, é quase sobre-humana.

A missão de House é salvar vidas. E, convenhamos, o que não é válido para salvar uma pessoa? Ele tem consciência desse paradigma e não mede esforços para atingir seu objetivo. Quebra todas as regras do hospital e da medicina tradicional, ignora burocracias e sentimentos de terceiros. Por vias tortas, alcança seu intuito sem se importar em ser laureado por isso. House odeia elogios e agradecimentos. Para ele, não fez mais que a obrigação. Sua vaidade é muito mais alimentada pelo conhecimento que possui do que pelos atos que concretiza. Só os inseguros e com baixa auto estima precisam de confetes. Ele não está interessado em ser reconhecido pelo que faz, está interessado em realizar o que julga certo, mesmo quando está errado. O erro, para ele, é necessário para descobrir os caminhos para chegar ao acerto.

O limite da sinceridade

House não economiza em sinceridade, por isso é infeliz e foge do contato humano. Fala, das formas mais rudes e inteligentes possíveis, exatamente aquilo que acredita. Não se importa em jogar na cara de seu interlocutor seus piores defeitos e fraquezas: os cita com desprezo e pena da espécie humana, sabendo que também os têm. Fala sempre com dor, pois tem consciência de que precisa reprimir suas próprias mazelas para não sair de seu padrão intocável de ética. Outro papel que lhe cabe é incomodar e gerar desconforto para que as pessoas saiam da letargia do dia-a-dia e despertem para o que verdadeiramente são. Mais do que ninguém, House sabe que a maioria vive como zumbi, fato que ele não aceita: é melhor sofrer desperto do que ser feliz anestesiado. Ser exatamente o que é: essa é a luta diária do médico.

House e as mulheres

Boa parte de sua visão da realidade foi construída pela falência da relação com a mulher que ama. Ao ser abandonado pela esposa, logo após uma cirurgia na perna que o deixou manco, o médico percebeu que jamais poderia amar outra mulher. Consciente de seu infortúnio, distancia-se de todas as mulheres de seu círculo e passa a aliviar suas necessidades sexuais com prostitutas e filmes pornográficos. Existe algo mais ético que isso? Existe forma mais correta de não produzir um casamento infeliz? Mesmo quando procurado por belas mulheres, não demora a jogar-lhes na cara o que sente e afastá-las de seu convívio.

Quando sua ex-esposa, já casada com outro homem, retorna ao seu círculo social, ele deixa claro que a ama, claro que sempre de forma ácida e irônica. Aguarda pelo arrependimento da mulher, porém se nega a retornar aos braços dela por saber que não daria certo. Sabe de suas limitações como companheiro e deixa a ex-mulher para o homem que realmente poderia cuidar dela. A ama mais do que deveria amar e é nesse momento que abdica totalmente da convivência humana.

O caráter ideal

House seria a construção do caráter ideal. Falível, como todo ser humano, mas que acredita e age baseado em inteligência, raciocínio e experiência de vida. Seu conhecimento absoluto da medicina e sua segurança inabalável o fazem ser o melhor em sua profissão. Mente quando tem de mentir, consciente da importância do ato, é grosseiro quando tem que ser, irônico quando necessário. Gosta de amedrontar e chocar as pessoas para provar que sempre está correto e que a humanidade é fundamentalmente hipócrita. As pessoas que não gostam dele são aquelas que não querem enxergar suas próprias verdades, as que o amam buscam de alguma forma entender-se melhor. O impossível, seja para um(a) canalha ou um ser honesto, é não admirá-lo.

A perfeição de Edu & Tom

Agosto 19, 2008

Afirmar qualquer coisa com certeza absoluta é quase sempre sinal de ignorância, mas me arrisco a dizer que o álbum Edu & Tom, gravado em 1981, é o melhor disco da história da música popular brasileira com sobras. Pelas minhas contas, só neste ano, escutei essa obra-prima mais de 60 vezes. Sei todas as letras, conheço as melodias, decorei até as harmonias. E, mesmo assim, não canso.

Para começo de conversa, um álbum que reúne em seu track list “Luiza” e “Chovendo na Roseira” já tem que ser observado como um fenômeno. A primeira, em minha opinião, é a música brasileira mais sofisticada e poética já composta. Parece uma valsa vienense com toques refinados do romantismo, mas prossegue popular até as raízes: difícil explicar. Alguns trechos têm alto valor poético, como o meu preferido: “Vem cá Luiza/ Me dá tua mão/ O teu desejo/ É sempre o meu desejo/ Vem me exorciza/ Me dá tua boca/ E a rosa louca/ Vem me dar um beijo/ E um raio de sol/ Nos teus cabelos/ Como um brilhante/ Que partindo a luz/ Explode em sete cores/ Revelando então/ Os sete mil amores/ Que eu guardei somente/ Pra te dar Luiza”. É um absurdo ou não é?

“Chovendo na Roseira”, por sua vez, deveria ser vista – muito mais que uma música – como um quadro pintado por notas musicais. É inacreditável o poder pictórico que melodia, harmonia e letra possuem, formando nitidamente a imagem de uma chuva que cai, mansamente, sobre uma roseira. Aqui, Tom Jobim usa sua profunda paixão pela natureza e seus conhecimentos da obra de Maurice Ravel – aquele mesmo que fez o “Bolero” – para criar sensações que concretizam os sentimentos que pretende passar.

O inacreditável desse disco é que as outras oito músicas que o compõe são tão boas quanto as duas mais conhecidas. A tristeza nunca foi tão bem definida quanto em “Para Dizer Adeus”. É uma música pesada, dolorosa: “Adeus/Vou pra não voltar/ E onde quer que eu vá/ Sei que vou sozinho…”. A voz de Edu Lobo, impecável, casa com o piano e ajuda a construir a atmosfera melancólica da canção. A voz de Tom, rouca e um pouco cansada, arrepia o mais frio dos seres humanos. O encontro vocal entre eles finaliza a canção mais emocionante do disco.

Falar de todas as músicas seria o mais justo, mas como o texto já está longo destaco “Moto-Contínuo”, uma declaração de paixão desnorteada: “Um homem pode ir ao fundo, do fundo, do fundo se for por você/ Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você/ Pode inventar qualquer mundo como um vagabundo se for por você/ Basta sonhar com você”. “Canção do Amanhecer”, “Vento Bravo” e “É Preciso Dizer Adeus” também são intocáveis como todo o resto do disco. Não existem reparos possíveis.

No geral, o que impressiona em Edu & Tom é o cuidado com todos os detalhes. Os instrumentos se casam com perfeição nos arranjos e cada nota e timbre é pensado arquitetonicamente. A genialidade e o domínio harmônico de Tom Jobim são ressaltados como nunca. Já Edu Lobo nasceu para cantar as músicas contidas nesse álbum. Ao escutar é possível perceber que a busca pela perfeição, aqui, foi contínua e obteve total sucesso. E é uma obra triste; de uma tristeza tão grande que se transforma em beleza. Quando se reúnem dois gênios com estilos diferentes e, ao mesmo tempo, com tantos pontos em comum o resultado só poderia ser o maior álbum de música brasileira de todos os tempos.

Nesse vídeo dá para sentir como foi o processo de gravação do álbum: