Arquivos para a Categoria ‘Mulheres’

Poema do dia

Fevereiro 14, 2009

Depois de imensa dor, segue-se um sentimento formal -

Os nervos, feito lápides, severos -

Hirto, o coração se pergunta se, de fato, a suportou

Há séculos ou se foi ontem apenas?

Os pés andam mecanicamente em círculo -

Pelo chão, no ar, por onde for -

Uma trilha tosca,

Aberta ao acaso;

Uma serenidade de quartzo, como têm as pedras -

Essa é a hora de chumbo -

Que se relembra, se superada,

Como alguém enregelado recorda a neve:

Primeiro, o frio – depois, o torpor – e, então, o deixar-se ir -

Emily Dickinson

As certezas e incertezas de Leila Diniz

Outubro 30, 2008

Nos últimos meses foram lançados dois livros biográficos de uma das mulheres brasileiras mais importantes do século XX. “Leila Diniz – Uma revolução na praia”, de Joaquim Ferreira dos Santos, e a reedição de “Toda mulher é meio Leila Diniz”, de Mirian Goldenberg, confirmam a relevância dela para a formação da personalidade feminina nos dias de hoje. E não tem como negar: uma frase de Leila Diniz é mais libertadora para as mulheres do que a soma de todas as temporadas de Sex and the City.

Leila chocava o País na época da ditadura por ter sacado que o livre-arbítrio é um direito do ser humano e não apenas dos homens. Falar os palavrões que lhe vinham na cabeça, transar com todo mundo, mas não com qualquer um, passear grávida de biquíni nas praias de Ipanema e deixar-se fotografar amamentando: coisas normais nos dias de hoje e vistos como absurdos nas décadas de 60 e 70.

O maravilhoso em Leila Diniz é que ela de fato era mulher, diferente de algumas que se dizem modernas, mas que só se portam assim para se parecerem com os homens e serem respeitadas como eles. Estou cansado de ver moças com posturas libertárias: não casam, trabalham 14 horas por dia, são donas de si, mas só querem ter um cargo idiota em uma grande empresa para pisar em seus funcionários. Ou outras, que saem trepando com todo mundo e com qualquer um para se sentirem mais gostosas. Leila, não. Como ela mesma dizia, trepava com todo mundo, mas não com qualquer um (repare na riqueza dessa metáfora, serve para tudo). Ela era moderna, libertária e inteligente. Os dois primeiros adjetivos não servem de nada sem o último.

Provavelmente, se ainda viva, Leila seria a típica mulher com quem eu teria um caso. Sairíamos durante alguns meses, nos divertiríamos absurdamente e teríamos dois destinos: ou eu me apaixonaria e quebraria a cara ou nós dois nos apaixonaríamos e viveríamos uma relação doentia. De qualquer forma, eu me apaixonaria e não daria certo.

O grande desafio deixado por Leila Diniz para as mulheres não é o de ser como ela. Praticamente todas são um pouco Leila hoje; o difícil era ter sua personalidade nos anos 60 e 70. O verdadeiro desafio imposto por Leila é viver e ter coragem, como ela, para concretizar o que se acredita independente de convenções (até o ideal de mulher livre, hoje, se tornou uma convenção, por isso mulheres ironicamente machistas me atraem). Para saber o que se precisa é necessário ser inteligente, para concretizar esses reais desejos é preciso ser Leila Diniz. Libertem-se garotas, se querem transar com todo mundo, que não seja com qualquer um. Cuidado com as armadilhas: ser uma mulher à frente de seu tempo está muito além das aparências – é preciso ter algumas certezas e muitas incertezas bem resolvidas.

Declaração do homem desesperado

Setembro 19, 2008

Quais silenciosas palavras se sustentam quando as pronuncia? Quais revelações plausíveis são ditas com um único olhar? Cada afirmação, cada abstinência, é tudo que desejo. É a vontade de dizer e não dizer. De simplesmente compartilhar segredos e carícias. Conhecer por completo todos os seus desejos, agarrar seus cabelos com força e, até o limite de minha serenidade, recostá-la junto ao meio peito. Deitar-me sobre ti sem reservas, abraçá-la como se abraça o ar. Sentir como se o vento cortasse meu rosto e o sol me envolvesse por inteiro. Beijá-la sem pressa, sem exaltações desnecessárias. Alcançar, enfim, a tranqüilidade que tanto aspiro. O reconforto diante de um mundo em que não mais acredito. A construção de um sentimento e não apenas o desespero da fuga momentânea. E, assim, leve, respirar na ausência de ar… Tornar a amar quando só resta desesperança… Sentir-me vivo diante da inexistência…

Quando o fim é inevitável

Setembro 13, 2008

Após cinco anos morando juntos, Joana e Matheus percebem que as coisas não funcionam mais e resolvem se separar. Alguns meses após o rompimento, Joana decide viajar para a França com o objetivo de começar uma nova vida longe do ex-marido. Matheus vai até o aeroporto se despedir e coloca um bilhete no bolso do casaco dela:

Estou em um táxi a caminho do aeroporto e tenho poucos minutos para lhe escrever algo que não pareça bobo, mas que transmita toda a intensidade dos cinco anos que passamos juntos. Só o faço para que você entenda como será difícil ficar longe de seu sorriso, acordar e não poder mais testemunhar seus olhos prestes a despertar, nem cobrir seus ombros nus arrepiados pelo frio da manhã ou sentir suas mãos que, sonolentas, tateavam por um abraço desesperado. Não sei como poderei passar imune à falta que sentirei de nossas conversas sinceras pela madrugada, nossas horas infindáveis de amor sem relógio, sem televisão, sem questões, sem porquês.
Não idealizamos um amor, nem sequer sabíamos ao certo o que estávamos fazendo. Éramos apenas duas pessoas perdidas que resolveram atracar seus corpos e almas em busca de um sossego vão. Sim, apesar de tudo, nos tornamos apenas um. Eu sabia, e ainda sei, relatar todos os seus sonhos e decepções. Consigo entender suas contradições e vejo em suas ações, por mais inesperadas, um esboço claro do que eu já previra antes. Conheço cada pedaço de seu corpo e cada ferida de sua alma. Explorei-os como alguém que busca inutilmente por qualquer resposta e tem a sede despropositada de conhecer o irreconhecível. As palavras estão mortas quando tento definir a importância de acordar, viver e dormir com você ao meu lado. As vogais e as consoantes escapam como que sugadas por um ralo. Talvez só o silêncio complacente e a melancolia levada às últimas conseqüências possam cumprir tal papel.
Hoje, no dia de nossa separação definitiva, julgo-me parcialmente morto. Espero que você tenha a consciência de que acaba de levar parte importante de tudo que sou. Só o que lhe peço é que carregue isso de forma natural, como se fizesse parte de você. Não a esqueça em qualquer canto, nem faça com que ela pese mais do que deveria. Lembre-se sempre que também carrego parte importante de você. Talvez seja esse o sentido da falência do amor: você fica com a parte que eu estava tentando me livrar, eu fico com a parte que você julgava indesejável. É uma troca justa. Somamos, assim, as nossas partes e nos tornamos pessoas melhores. Pessoas mais tristes, mais vazias, mais quietas, mas pessoas melhores. Às vezes acho que o objetivo do ser humano é chegar ao fim de seus dias com a certeza de que sempre foi sozinho e sabendo, de forma serena, que possui um vazio incomensurável. Só assim terá certeza de que encontrou tudo aquilo que era possível encontrar. E você, Joana, será parte fundamental desse meu encontro comigo e com o meu vazio. Obrigado por tudo.

Com o amor de sempre,
Matheus