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O último suspiro

Novembro 24, 2008

*Baseado em um diálogo real

Sentada na cadeira, contava histórias com a voz desgastada e oscilante. Atrapalhava-se em alguns devaneios, perdia o fio da meada, mas sempre retornava ao enredo com a memória fresca. As costas de suas mãos, enrugadas pelo tempo, movimentavam-se freneticamente enquanto ela narrava. Seus olhos, pequenos, quase fechados, permaneciam com uma umidade constante nos cantos, como uma lágrima prestes a ser formada e derramada. Vestia-se com um terno mostarda – incrivelmente moderno para seus 90 anos -, calçava uma sandália com tiras grossas e gabava-se de seus colares e pulseiras brilhantes.

Todos em volta da mesa prestavam atenção em cada minúcia de sua fala. Ali, compenetrada, contava seu fascínio perante o último suspiro da morte. Contava como seus pais morreram em seus braços e ela ouvira o mesmo e irremediável suspiro. “Precisa ver, o suspiro dos dois foi igualzinho”, repetia. Contava como fora duro testemunhar aqueles suspiros e como ela, a partir de então, passara a persegui-los. Tornara-se uma viciada. Era reconfortante estar presente no momento crucial.

Cada vez mais emocionada, narrava a vez em que passara por um acidente de moto e aproximara-se da vítima à beira da morte. Ficou próxima dele, pegou em suas mãos e ouviu mais uma vez aquele mesmo suspiro. Não importava se homem, mulher, voz grave ou aguda: o som, doce, era sempre o mesmo. Consolador, reconfortante, libertador. Certa vez, um vizinho solitário ficara muito doente. Fez questão de cuidar dele até o último momento.

Mas não era apenas ela quem perseguia o último suspiro. Ele também começou a persegui-la. Seu filho caíra de joelhos em seus pés após um ataque cardíaco. Sabia que o destino seria fatal, colocou o ouvido próximo dos lábios dele e ouviu mais uma vez aquele som encantador. Só depois sofria, e sofria muito, com todas aquelas perdas. Antes, porém, nada lhe importava: apenas o som etéreo e encantador. Perdera avós, pais, alguns filhos, primos, amigos. Ouvira o último suspiro de muitos e sentia-se privilegiada por isso.

Sua grande frustração era perder aquele momento. A irmã morrera sentada na cadeira de balanço, totalmente só, e demoraram horas para descobrir. “Morreu de velha, desligou”, lembra. Ela estava na cozinha, passando o café, e não ouviu o suspiro solitário da irmã. “Da mesma forma que nascemos e vivemos, morremos: sozinhos”. Hoje, a morte que mais a intriga é a dela mesma. “Será que ouvirei meu último suspiro?”.

A tatear o ar

Novembro 17, 2008

Tomou consciência de seu infortúnio ao encontrá-la amparada em outros braços. Parou, olhou e suspeitou de que aquele era o momento-chave de uma existência até então insuportável. Extrairia dali as forças para desvanecê-la de seus pensamentos e inundar sua mente com outras definições imagéticas. Olhou mais uma vez, via os braços dele transpassar a cintura dela, as mãos dela tocar suavemente os cabelos dele. Observou a cena fixamente, sem sobressaltos, sentindo, pungente, cada traço de sua dor.

Naqueles longos minutos – suficientes até mesmo para tragar pacientemente seu cigarro – passou-lhe pela cabeça todos os erros que tinha cometido quando era ele quem estava naqueles braços. Refletiu e concluiu que se agora ela se contentava com outros braços era pelo fato dos seus não mais a servirem. Pensou que proteção era o único desejo e a única necessidade dela e que ele não soubera como envolvê-la em total e absoluta serenidade. Na cabeça dele, era óbvio, os braços que agora a abraçavam conquistaram o objetivo que ele falhara. Fechou os olhos e se viu mergulhado em cenários negros que comprovavam sua incapacidade de enxergar adiante. Ele era um fraco cujo passado não conseguia apagar. Sabia disso e não se conformava.

Apagou o cigarro, admitiu a derrota, virou-se de costas e abaixou a cabeça. Mas a cena ficara gravada e impregnada em sua íris para sempre. Não importava se de olhos abertos ou fechados, prosseguia enxergando a cena posterior; para sempre, para todo o sempre. Enquanto ainda estivesse respirando, enxergaria aquele abraço, aquelas intimidades, aquele maldito e silencioso beijo. Era como uma película que se repetia eternamente em uma sala de projeção abandonada. Não era uma imagem estática: a cena, sempre a mesma, tinha um movimento cruelmente harmônico. Ele enxergava ali a felicidade plena, sem a possibilidade, no entanto, de participar dela.

A cena se repetia, se repetia, se repetia… Um transe insuportável. Sem descanso, sem piedade. E ela, ela se movimentava cada vez mais graciosa, demonstrava estar cada vez mais feliz e realizada. Demonstrava em seu olhar de contentamento que ele era dispensável, que apenas havia sido um abrigo provisório em um momento oportuno. A cena se movimentava com velocidade cada vez mais indefinida. Uma tranqüilidade caótica que o perturbava por ser bela e surreal. O enquadramento pendulava lentamente como uma nau em meio ao mar revolto. As cores derramavam-se conforme o balanço da cena. Nada mais fazia sentido. Ele não a enxergava mais como ela era, só observava manchas multicolores dissolutas que se assemelhavam a um abraço vago, distante, impreciso…

Concentrou-se na imagem como nunca na tentativa de identificar a cena novamente. Percebeu que agora quem a abraçava era ele mesmo. Mas percebeu que, na verdade, não era mais ela quem protagonizava a cena. Percebeu que se tratava de um fantasma, de um vulto indefinido e mortalizado, que sumia a cada frame… E ele abraçava aquela sombra com todas as forças, tentava puxá-la para si e ela escorria-lhe de seus braços como uma tinta que fora jogada a esmo em uma tela em branco. Viu-se sozinho em meio à cena, a tatear o ar. Viu-se sem ter o que fazer com os braços e as mãos. Acendeu um cigarro – a fumaça serpenteava ao ritmo do enquadramento torto e tresloucado da cena – e se viu sozinho em um cenário que já não fazia mais qualquer sentido concreto. Nunca mais conseguiu identificar-se… Dissolveu-se até a última gota de sua existência…

Sobre fumar

Setembro 4, 2008

“O Dicionário da Corte de Paulo Francis” é um daqueles livros para se ler sem ordem. Abre-se uma página ao acaso e lá está uma definição genial de Paulo Francis. Organizado por Daniel Piza, as frases demonstram as contradições do jornalista. É possível ler desde bobagens inteligentissímas até opiniões sóbrias e bem estruturadas. A que mais me chamou atenção foi a definição de fumar:

“O primeiro cigarro da manhã para mim, depois de um café forte, enche os pulmões, dopa os bichos, e a sensação é de que estou sendo narcotizado de leve e há um modesto êxtase, e, mais, a sensação de que não preciso de ninguém para meu conforto e prazer corporal. Há muito de sexual na experiência. Os pós-refeições, almoço e jantar, depois que o organismo foi preenchido de outras substâncias que devem cortar o efeito do cigarro, são quase tão deliciosos, justamente por restabelecerem a intoxicação. O cigarro é também um companheiro de nossa solidão. Quando se está muito só, com o sentimento de estar longe de tudo, no sentido real e figurativo, acender um cigarro é um microorgamo que nos dá no pulmão, a fumaça que nos enche a vista, o cheiro perfumado, o gesto de levá-lo a boca e tirá-lo nos diminui o vácuo d’alma. Escrever fumando me dá maior certeza. E finalmente o cigarro é ter alguma coisa para fazer. Mais e mais não temos o que fazer. A tecnologia eliminou grande parte do trabalho braçal. A informática, o mental.” Paulo Francis

Sobre livros e a curiosidade

Agosto 23, 2008

Revoltei-me de vez com a escola durante o segundo colegial. Era quarta-feira, estudava no Objetivo, em Jundiaí, resolvi deixar a aula de física de lado e ir para a biblioteca. Estava sentado na mesa, quieto, lendo “Crime e Castigo”, de Dostoievski, quando a inspetora do colégio chegou. Tomei uma das maiores broncas da minha vida e fui suspenso por um dia. Só fui retomar a leitura no terceiro ano da faculdade. Na época tinha 16 anos, não sabia direito quem era Dostoievski e que no futuro aquele seria um dos três melhores livros que eu leria em minha vida. Na verdade, apenas estava interessado no nome intrigante e na capa que me chamara atenção. Mas a inspetora, cruelmente, reprimiu a minha curiosidade.

Não sei por quais motivos sempre fui resistente ao desestimulo literário que a maioria das escolas impõem aos seus alunos. A aula de literatura – pensando hoje como jornalista e, se tudo der certo, futuro professor – era patética. Preocupada em preparar os estudantes para o vestibular, a professora colocava em tópicos os períodos e suas características: informações insossas, descartáveis e desprovidas de qualquer sentido. Decorar o que formou o estilo do Indianismo é tão importante e excitante para a formação de um ser humano quanto o ato de roer as unhas.

Muitos dos melhores alunos do colégio no passado hoje odeiam ler e não se interessam por nenhum tipo de arte ou manifestação cultural. A escola formatou a criatividade e matou qualquer tipo de curiosidade que existia dentro delas. A indicação de leituras incompatíveis com a idade e com a cognição em formação levou-as a se enojarem e se assustarem ao pensar em um livro. Ler “O Memorial do Convento”, de José Saramago, no primeiro colegial, por exemplo, é quase tão absurdo quanto empossar um garoto de sete anos como presidente de uma grande empresa. Aliás, acho muito pior. Uma empresa vale muito pouco se comparada aos pensamentos íntimos de uma única pessoa: prefiro uma empresa falida que um ser humano passivo.

Chega a ser engraçado pensar que a leitura é imposta no colégio como simples obrigação para o vestibular e que o famigerado “programa” se esqueça de orientar o aluno sobre o que um livro significa de fato. O prazer de ter a oportunidade de encontrar nas palavras de um autor os sentimentos que ele nutria na época em que vivia, encontrar beleza estética em parágrafos bem construídos e se envolver com personagens e situações que lhe fazem pensar na vida são descartados. Tudo isso não importa? Com 18 anos, mais do que nunca, o ser humano quer pensar na vida e não em um gabarito o qual até um macaco pode escolher entre a, b ou c.

Durante os três anos do meu colegial, a inspetora insistia em dizer que eu jamais chegaria a lugar algum com minha postura. Matava aulas constantemente, desafiava professores e discutia com colegas que só sabiam falar de carros e motores. Tenho que admitir que eu era um moleque: hoje prefiro o silêncio ou a ironia. Mas ela fazia questão de jogar na minha cara como eu seria um perdedor no futuro. No fim do terceiro ano, quando passei no vestibular, ela ligou em minha casa me convidando para posar para uma foto dos estudantes que entraram nas principais faculdades do País. Entre elas estava a minha, a Cásper Líbero. Não apareci, obviamente, mas desliguei o telefone com um sorriso maldoso e sarcástico no rosto. Apesar de nunca me esforçar para concretizá-la, a vingança sempre foi um dos meus pontos fracos…