“O Dicionário da Corte de Paulo Francis” é um daqueles livros para se ler sem ordem. Abre-se uma página ao acaso e lá está uma definição genial de Paulo Francis. Organizado por Daniel Piza, as frases demonstram as contradições do jornalista. É possível ler desde bobagens inteligentissímas até opiniões sóbrias e bem estruturadas. A que mais me chamou atenção foi a definição de fumar:
“O primeiro cigarro da manhã para mim, depois de um café forte, enche os pulmões, dopa os bichos, e a sensação é de que estou sendo narcotizado de leve e há um modesto êxtase, e, mais, a sensação de que não preciso de ninguém para meu conforto e prazer corporal. Há muito de sexual na experiência. Os pós-refeições, almoço e jantar, depois que o organismo foi preenchido de outras substâncias que devem cortar o efeito do cigarro, são quase tão deliciosos, justamente por restabelecerem a intoxicação. O cigarro é também um companheiro de nossa solidão. Quando se está muito só, com o sentimento de estar longe de tudo, no sentido real e figurativo, acender um cigarro é um microorgamo que nos dá no pulmão, a fumaça que nos enche a vista, o cheiro perfumado, o gesto de levá-lo a boca e tirá-lo nos diminui o vácuo d’alma. Escrever fumando me dá maior certeza. E finalmente o cigarro é ter alguma coisa para fazer. Mais e mais não temos o que fazer. A tecnologia eliminou grande parte do trabalho braçal. A informática, o mental.” Paulo Francis
