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Eu acredito no R.E.M

Novembro 12, 2008

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Passava das nove da noite de segunda-feira quando recebi a ligação do meu amigo Helder dizendo que tinha credenciais para o primeiro show do R.E.M em São Paulo. Sai da aula de inglês, fui correndo para casa, tirei a fantasia de trabalho e coloquei jeans, tênis e camiseta. Encontrei com o Helder 21:30 e pegamos um táxi até o Via Funchal. Chegamos a tempo de tomar uma cerveja na porta e graças a Deus perdemos o show do Wilson Sideral. Depois disso, todas as palavras que seguem não têm força para expressar o que é o R.E.M no palco.

Tudo bem, experiência é importante. Mas mais do que isso, saber envelhecer bem, com classe e jovialidade, é o ingrediente principal. Raras são as bandas que podem se orgulhar de não pararem no tempo ou de não bancarem o ridículo depois de décadas na estrada. O R.E.M é uma das exceções da regra: pulam, dançam, fazem rock, mas não se caracterizam nem como dinossauros nem como decadentes metidos a descolados. Eles simplesmente sobem no palco e fazem música.

O impressionante das duas apresentações foi a força sonora absurda que surgia do palco. O som estava alto, muito alto. Pois é isso, um show de rock é um grito para despertar aqueles que dormem. Se nossa geração tem algum inimigo é a falta de paixão pelas coisas e pessoas. O show do R.E.M é uma catarse para sair da letargia. Michael Stipe dançando, pulando, cantando e sorrindo é a imagem do homem de quase 50 anos que envelheceu bem. Ele não é um moleque metido a rock star com uma garotinha(o) de 20 anos a tira colo nem um velho chato e emburrado: ele é Michael Stipe, vocalista do R.E.M, gay assumido e politicamente ativo sem ser chato como o Bono. E que puta vocalista: uma das melhores atuações ao vivo que já tive a oportunidade de assistir.

O show, basicamente, teve cinco músicas do novo e excelente álbum Accelerate. O resto, uma enxurrada de clássicos. Era como receber uma bofetada atrás da outra sem tempo para respirar. Tomava-se o primeiro tapa e, em seguida, já vinha outro na face oposta. Um atrás do outro, sistematicamente. Fica difícil escolher uma preferida. “Drive”, “Electrolite”, “Bad Day” e “Orange Crush” foram algumas que quase me fizeram chorar. “Everybody Hurts”, a música mais triste da história, arrancou lágrimas de metade das sete mil pessoas presentes.

E a coisa esquentou de verdade quando a banda tocou sucessos como “Imitation Of Life”, “The One I Love”, “It’s the End of the World As We Know It (And I Feel Fine)”, “Losing My Religion” e “Man On The Moon”. A facilidade dos refrões marcantes fazia com que o público quase cobrisse a voz de Stipe. Se isso não aconteceu, foi pela absurda massa sonora vinda do palco. Gritar “I Feel Fine” com todas as forças diante do fim do mundo é uma experiência maravilhosa. Na primeira noite, antes do bis, o público entrou em transe, batendo os pés no chão e gritando com todas as forças. Vi pessoas tapando os ouvidos por não suportarem o barulho. Incrível!

Mais do que um show, o R.E.M proporcionou aos que estiveram no Via Funchal uma experiência de intensidade sem limites. Um momento, pelo menos para mim, histórico. Em tempos em que a própria história parece recomeçar com a eleição de Obama (festejada por Stipe duas vezes durante os shows), a apresentação do R.E.M representa os bons motivos que ainda temos para viver e acreditar em alguma coisa…