Arquivos para a Categoria ‘Impossibilidades’

Calem-se!

Fevereiro 17, 2009

Observar é o segredo

Olhar, ouvir e deixar de falar

Quem muito verbaliza não sente

Quem escuta, pressente e entende

Aprendi que a palavra é uma arma

Vulgarizá-la é não saber pensar

A medida certa é a escassez

É a frase curta que desorienta

A missão da palavra é assombrar

Não soar como um tiro pro ar

Cada palavra é sagrada

Cada frase é decisiva

Se o objetivo não é subverter

Existe o silêncio para preencher

Abram os ouvidos e calem-se!

Uma proposta

Dezembro 11, 2008

De acordo com uma pesquisa realizada por neurocientistas da Universidade da Califórnia, a região do córtex pré-frontal, parte do cérebro fundamental para a resolução de problemas e para a criatividade, funciona de forma menos eficiente entre os mais pobres. Mas não é a alimentação inadequada ou qualquer outra defasagem propiciada pelo pouco dinheiro que afetam essa parte do cérebro. O problema é a falta de estímulo, a falta de exercício mesmo. A ausência de contato com opções de cultura – como livros, filmes, exposições e brincadeiras construtivas – fazem com que o córtex não se desenvolva. É puramente físico, assim como ocorre com um músculo que se atrofia com a falta de exercício.

Fiquei pensando ao ler essa notícia que boa parte da classe média e da elite brasileira, se fizessem o mesmo exame, apresentariam resultados desastrosos. Apesar da Internet, que nos mantém em contato com palavras e processos criativos a todo o momento, a preocupação cada vez menor das pessoas com cultura está formando gerações com o cérebro atrofiado.

A realidade é formada por palavras. São elas que dão algum sentido ao caos. Portanto, quem lê mais enxerga um espectro maior da vida. Quanto maior seu vocabulário, mais vivo você está, mais consciente de sua existência. Quem não tem contato nenhum com qualquer forma de arte perde essa noção de consciência e não vive como um ser pensante, apenas vegeta e acompanha o fluxo. A prova, física, está aí. O córtex pré-frontal vira uma ameixa seca.

Antes que os politicamente corretos chatos de plantão me apedrejem, não acho que um analfabeto seja um animal rastejante. Pelo contrário, alguns analfabetos apresentariam resultados melhores, pois muitos deles gostam de contar e ouvir histórias, isso já é um puta estímulo. A arte não se limita apenas ao que a elite intelectual impõe como tal. Pensei, dessa forma, em uma campanha para toda a população brasileira. Acompanhe a idéia:

Poderíamos criar propagandas na televisão aterrorizando as pessoas com essa história. Dizendo que se elas não lerem, não irem ao cinema e não apreciarem algum tipo de arte terão o córtex devastado por uma doença gravíssima. Seria uma gritaria geral: tomem seus remédios, tomem seus remédios! Não conheço nenhuma campanha de marketing melhor do que gerar medo, você conhece?

Seriam entregues livros nos postos de saúde pública. Campanhas por todo País com palestras e seminários. Machado de Assis, Kafka, Cecília Meireles e Hilda Hilst passariam a ser nomes comuns nas conversas populares. “Já li meus Goeths de hoje, um de manhã e o outro de noite”. James Joyce e Guimarães Rosa só com receita médica. Schopenhauer e Nietzsche seriam considerados faixa-preta: “Só em caso de vazio agudo e irreversível”.

Imagino um Doutor do interior de São Paulo indicando filmes surrealistas e sinfonias de Bethoveen para as próximas duas semanas, ao menos três vezes ao dia. Os lançamentos de novos antibióticos chegariam aos montes no mercado. Para testes em crianças africanas seriam enviados os livros e curtas de autores e diretores desconhecidos e pouco confiáveis. Paulo Coelho seria o que o Prozac e a aspirina são hoje: todo mundo acha que precisa. As coleções, almanaques e dicionários se assemelhariam aos coquetéis contra uma enfermidade fatal. Todos correriam às livrarias e sebos sedentos pela cura do esfarelamento do cérebro. A Livraria Cultura se tornaria fundamental para o PIB brasileiro. Indústrias e mais indústrias de produção cultural seriam erguidas. Multinacionais chegariam ao País. Dinheiro, muito dinheiro.

Alguns pacientes teriam de ser internados em bibliotecas públicas ou em salas de cinema especializadas. O Ministério da Cultura seria filiado ao da Saúde e receberia a mesma verba. As pessoas esqueceriam as outras doenças – que na verdade só existem na cabeça delas – e deixariam de gastar na farmácia. Dores de cabeça seriam curadas com visitas ao museu, estresse com noturnos de Chopin e impotência com algum pornô artístico. Todo pai, antes dos filhos pequenos viajarem, colocariam um livro pocket na bolsa para possíveis eventualidades. E o melhor: ninguém jamais teria uma overdose por excesso de medicamentos…

Sonhos irrealizáveis I

Agosto 27, 2008

1 – Assistir a um show do Queen como banda de abertura e os Beatles como atração principal.
2 – Entender por completo os sentimentos que as mulheres me inspiram.
3 – Sentar em uma mesa de bar com Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues, Jaime Ovalle e Paulo Leminski.
4 – Ser um beatnik em plena década de 1960.
5 – Sentar sozinho em um bar minúsculo em Nova York, envolto em espessas nuvens de fumaça, tomar uma garrafa de uísque e assistir Charlie Parker, Miles Davis e Dave Brubeck Quartet ao vivo.
6 – Ver a minha avó fumando e falando merda pelo menos mais uma vez.
7 – Ler todos os livros, escutar todas as músicas e assistir todos os filmes e séries que eu gostaria.
8 – Que fossemos todos menos míopes.

*Vivo para concretizar os realizáveis. Se alguém sentir vontade, comente sobre seus sonhos que nunca serão reais.