Arquivos para a Categoria ‘Família’

Isabella aos dois meses

Janeiro 13, 2009

O que mais me impressionou nos últimos tempos foi um aperto de mão. Não foi bem um aperto de mão, foi um aperto de dedo. Estendi meu braço para Isabella e seus dedos quase inexistentes apertaram com força os meus. A intensidade aumentava conforme eu tentava me desvencilhar. Seus olhos azuis arregalados me olhavam como se quisessem me reconhecer. Após duas semanas e meia de ausência, ela precisava saber quem estava lhe oferecendo tamanha intimidade.

E foi assim durante todo o fim de semana, Isabella me observava como se eu fosse um enigma. Foram longas trocas de olhar. Ela, atenta, respiração tranqüila, curiosa para saber quem era aquele ser de barba com a expressão cansada. Percebi, ali, que nos entendemos no silêncio. Que nossa intimidade já é mais consolidada do que muitas das minhas relações verbalizadas. Nós nos amamos pelo olhar.

Deitada de lado, com os pés minúsculos e as pernas desenhadas por pequenas dobras de pele, adormeceu olhando pra mim. Dormi ao lado dela, não por estar com sono, mas por estar absolutamente em paz. Acordei, virei o rosto e lá estava ela: quieta, com a boca entreaberta e os olhos fixos em mim. Entreolhamos-nos por longos minutos. Me emocionei. Me emocionei, pois descobri que estava ali mais uma das coisas que fazem a minha vida valer a pena. E é sempre bom lembrarmos que ela vale alguma coisa…

Minha irmã grávida – Parte Final

Outubro 28, 2008

Quando você observa uma recém-nascida despertar, após observá-la por quase dez minutos, percebe que a urgência não existe. Minha relação com Isabella ainda é a do olhar. Ela ainda não apresenta reações, curiosidades sobre o que a rodeia ou sentimentos formados. Está vazia, mas já ávida, como todo ser humano, pelo processamento de informações. Seus instintos básicos – chorar, mamar, dormir e fazer cocô – predominam sobre qualquer outra coisa. E o processo de humanização é constante e fascinante. O que demoraria meses para um adulto entender, ela logo aprenderá em um minuto.

Quando nasce um bebê, a revitalização da família é incrível. O ambiente fica mais sereno, as idéias são mais ponderadas e a esperança aumenta. Ver um ser que ainda se formará desperta uma espécie de conforto, como se a sua própria vida recomeçasse. A urgência fica para trás, o imediato já não é mais a regra. O futuro tem um propósito que antes não tinha. Para que a pressa se o desenvolvimento é natural?

A idéia da solidão se desvanece. É como se você pensasse que uma companhia está assegurada para os anos que se aproximam e que nada poderá tirar isso de você. Óbvio que é uma noção falsa: ela vai crescer, pensar, envolver-se em relações humanas e se individualizar como todos nós. Mas, neste exato momento, ela precisa de alguém sempre ao seu lado. Vive-se essa verdade sem se preocupar com a urgência. Essa é a alegria de ser tio e imagino que essa felicidade deva ser mil vezes mais intensa para os pais. Algo inimaginável.

O melhor de ser tio é a expectativa de acompanhar o desenvolvimento desde os primeiros dias de uma pessoa que você de fato ama: o amor por alguém que não faz nada para recebê-lo é muito mais verdadeiro do que aquele cobrado. Cobrar um sentimento de alguém é injusto; recebê-lo sem motivos concretos é o que mais se aproxima da verdade. Não se ama alguém pelo o que ela é ou fez: ama-se alguém e ponto. Admirar, se encartar, se apaixonar e amar são verbos diferentes, apesar de quase nunca conseguirmos identificá-los.

Minha cabeça muda toda semana, mas a chegada de um novo parente tão próximo extrapola qualquer reavaliação sobre as coisas: tudo ganha um novo sentido. Imagine o dia em que me apaixonar pela barriga da minha própria mulher… Se é que isso um dia vai mesmo acontecer. Mas nada de urgência; sem nenhuma pressa…