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A tatear o ar

Novembro 17, 2008

Tomou consciência de seu infortúnio ao encontrá-la amparada em outros braços. Parou, olhou e suspeitou de que aquele era o momento-chave de uma existência até então insuportável. Extrairia dali as forças para desvanecê-la de seus pensamentos e inundar sua mente com outras definições imagéticas. Olhou mais uma vez, via os braços dele transpassar a cintura dela, as mãos dela tocar suavemente os cabelos dele. Observou a cena fixamente, sem sobressaltos, sentindo, pungente, cada traço de sua dor.

Naqueles longos minutos – suficientes até mesmo para tragar pacientemente seu cigarro – passou-lhe pela cabeça todos os erros que tinha cometido quando era ele quem estava naqueles braços. Refletiu e concluiu que se agora ela se contentava com outros braços era pelo fato dos seus não mais a servirem. Pensou que proteção era o único desejo e a única necessidade dela e que ele não soubera como envolvê-la em total e absoluta serenidade. Na cabeça dele, era óbvio, os braços que agora a abraçavam conquistaram o objetivo que ele falhara. Fechou os olhos e se viu mergulhado em cenários negros que comprovavam sua incapacidade de enxergar adiante. Ele era um fraco cujo passado não conseguia apagar. Sabia disso e não se conformava.

Apagou o cigarro, admitiu a derrota, virou-se de costas e abaixou a cabeça. Mas a cena ficara gravada e impregnada em sua íris para sempre. Não importava se de olhos abertos ou fechados, prosseguia enxergando a cena posterior; para sempre, para todo o sempre. Enquanto ainda estivesse respirando, enxergaria aquele abraço, aquelas intimidades, aquele maldito e silencioso beijo. Era como uma película que se repetia eternamente em uma sala de projeção abandonada. Não era uma imagem estática: a cena, sempre a mesma, tinha um movimento cruelmente harmônico. Ele enxergava ali a felicidade plena, sem a possibilidade, no entanto, de participar dela.

A cena se repetia, se repetia, se repetia… Um transe insuportável. Sem descanso, sem piedade. E ela, ela se movimentava cada vez mais graciosa, demonstrava estar cada vez mais feliz e realizada. Demonstrava em seu olhar de contentamento que ele era dispensável, que apenas havia sido um abrigo provisório em um momento oportuno. A cena se movimentava com velocidade cada vez mais indefinida. Uma tranqüilidade caótica que o perturbava por ser bela e surreal. O enquadramento pendulava lentamente como uma nau em meio ao mar revolto. As cores derramavam-se conforme o balanço da cena. Nada mais fazia sentido. Ele não a enxergava mais como ela era, só observava manchas multicolores dissolutas que se assemelhavam a um abraço vago, distante, impreciso…

Concentrou-se na imagem como nunca na tentativa de identificar a cena novamente. Percebeu que agora quem a abraçava era ele mesmo. Mas percebeu que, na verdade, não era mais ela quem protagonizava a cena. Percebeu que se tratava de um fantasma, de um vulto indefinido e mortalizado, que sumia a cada frame… E ele abraçava aquela sombra com todas as forças, tentava puxá-la para si e ela escorria-lhe de seus braços como uma tinta que fora jogada a esmo em uma tela em branco. Viu-se sozinho em meio à cena, a tatear o ar. Viu-se sem ter o que fazer com os braços e as mãos. Acendeu um cigarro – a fumaça serpenteava ao ritmo do enquadramento torto e tresloucado da cena – e se viu sozinho em um cenário que já não fazia mais qualquer sentido concreto. Nunca mais conseguiu identificar-se… Dissolveu-se até a última gota de sua existência…

A que ponto chegou a cegueira

Outubro 2, 2008

Hoje perdi o humor ao ler que a Federação dos Cegos dos EUA planeja uma manifestação no dia da estréia do filme “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles. O argumento: “É um retrato ofensivo e assustador que pode minar os esforços de integrar os cegos à vida em comunidade. O filme retrata cegos como monstros, e vejo isso como uma mentira”, disse o presidente da tal Federação.

Será que esse babaca sabe o que é uma metáfora? Será que ele não percebeu que a cegueira a que se refere o filme e o livro vai muito além da falta de visão? Ou será que ele é esperto e só quer que sua associaçãozinha apareça um pouco na mídia? Meu Deus do Ceú. Quando leio uma coisa dessa me dá desespero. Isso é burrice, estupidez, ignorância. É falta de sensibilidade, de humanidade, de racionalidade. Estamos no século XXI e as pessoas estão cada vez mais estúpidas? Essa Federação é realmente formada por cegos em todos os sentidos possíveis da palavra. Se eu fosse cego teria vergonha de ser representado por ela.

Os Desafinados

Setembro 2, 2008

É louvável que um diretor consiga realizar um filme tão ruim quanto “Os Desafinados”. Principalmente quando aborda uma das histórias mais fascinantes da cultura brasileira. É ainda mais louvável conseguir tratar de temas como bossa nova, cinema novo e ditadura de maneira tão rasa e desnorteada. A miscelânea do roteiro é tão absurda que mistura eventos como o histórico show do Carnegie Hall, em Nova York, nos anos 60, com o sumiço do pianista brasileiro Tenório Jr. na Argentina, em meados de 1970. Os acontecimentos, sem nenhum tipo de relação temporal, desdobram-se na tela jogados ao vento. O diretor utilizou as histórias a partir da segunda metade do século XX que julgava mais interessantes e resumiu em duas horas de filme. E essas duas horas parecem se multiplicar: o ritmo do filme é pavoroso, da metade para frente o enredo se arrasta e a vontade é sair do cinema.

Além disso, os clichês estão presentes em todos os momentos. Quem conhece minimamente a bossa nova sairá do cinema chocado diante de tamanho lixo. Aqueles que nunca ouviram falar podem se encantar falsamente com a história, já que é realmente tarefa das mais árduas destruir um período tão rico. Mas Walter Lima Jr. foi impiedoso e conseguiu estupidificar o movimento por completo.

Algumas coisas quase se salvam no meio da confusão. O personagem de Selton Mello é interessante e cria algumas situações inteligentes e bem sacadas, Cláudia Abreu – apesar da atuação mediana – está absolutamente linda. Algumas de suas aparições são desconcertantes. Mas sua personagem é tão besta e artificial quanto a de Rodrigo Santoro. Os dois protagonizam um romance água com açúcar dos mais ralos e chatos que me lembro. A bossa nova é o pano de fundo de todo esse melodrama insosso. O pior é a tentativa canalha de parecer politicamente incorreto e de esquerda: é Globo Filmes, o que eu esperava também, não? Resultado: o pior filme que assisti neste ano e uma aula de como não se fazer um roteiro.