Arquivos para a Categoria ‘Bossa Nova’

Os Desafinados

Setembro 2, 2008

É louvável que um diretor consiga realizar um filme tão ruim quanto “Os Desafinados”. Principalmente quando aborda uma das histórias mais fascinantes da cultura brasileira. É ainda mais louvável conseguir tratar de temas como bossa nova, cinema novo e ditadura de maneira tão rasa e desnorteada. A miscelânea do roteiro é tão absurda que mistura eventos como o histórico show do Carnegie Hall, em Nova York, nos anos 60, com o sumiço do pianista brasileiro Tenório Jr. na Argentina, em meados de 1970. Os acontecimentos, sem nenhum tipo de relação temporal, desdobram-se na tela jogados ao vento. O diretor utilizou as histórias a partir da segunda metade do século XX que julgava mais interessantes e resumiu em duas horas de filme. E essas duas horas parecem se multiplicar: o ritmo do filme é pavoroso, da metade para frente o enredo se arrasta e a vontade é sair do cinema.

Além disso, os clichês estão presentes em todos os momentos. Quem conhece minimamente a bossa nova sairá do cinema chocado diante de tamanho lixo. Aqueles que nunca ouviram falar podem se encantar falsamente com a história, já que é realmente tarefa das mais árduas destruir um período tão rico. Mas Walter Lima Jr. foi impiedoso e conseguiu estupidificar o movimento por completo.

Algumas coisas quase se salvam no meio da confusão. O personagem de Selton Mello é interessante e cria algumas situações inteligentes e bem sacadas, Cláudia Abreu – apesar da atuação mediana – está absolutamente linda. Algumas de suas aparições são desconcertantes. Mas sua personagem é tão besta e artificial quanto a de Rodrigo Santoro. Os dois protagonizam um romance água com açúcar dos mais ralos e chatos que me lembro. A bossa nova é o pano de fundo de todo esse melodrama insosso. O pior é a tentativa canalha de parecer politicamente incorreto e de esquerda: é Globo Filmes, o que eu esperava também, não? Resultado: o pior filme que assisti neste ano e uma aula de como não se fazer um roteiro.

A perfeição de Edu & Tom

Agosto 19, 2008

Afirmar qualquer coisa com certeza absoluta é quase sempre sinal de ignorância, mas me arrisco a dizer que o álbum Edu & Tom, gravado em 1981, é o melhor disco da história da música popular brasileira com sobras. Pelas minhas contas, só neste ano, escutei essa obra-prima mais de 60 vezes. Sei todas as letras, conheço as melodias, decorei até as harmonias. E, mesmo assim, não canso.

Para começo de conversa, um álbum que reúne em seu track list “Luiza” e “Chovendo na Roseira” já tem que ser observado como um fenômeno. A primeira, em minha opinião, é a música brasileira mais sofisticada e poética já composta. Parece uma valsa vienense com toques refinados do romantismo, mas prossegue popular até as raízes: difícil explicar. Alguns trechos têm alto valor poético, como o meu preferido: “Vem cá Luiza/ Me dá tua mão/ O teu desejo/ É sempre o meu desejo/ Vem me exorciza/ Me dá tua boca/ E a rosa louca/ Vem me dar um beijo/ E um raio de sol/ Nos teus cabelos/ Como um brilhante/ Que partindo a luz/ Explode em sete cores/ Revelando então/ Os sete mil amores/ Que eu guardei somente/ Pra te dar Luiza”. É um absurdo ou não é?

“Chovendo na Roseira”, por sua vez, deveria ser vista – muito mais que uma música – como um quadro pintado por notas musicais. É inacreditável o poder pictórico que melodia, harmonia e letra possuem, formando nitidamente a imagem de uma chuva que cai, mansamente, sobre uma roseira. Aqui, Tom Jobim usa sua profunda paixão pela natureza e seus conhecimentos da obra de Maurice Ravel – aquele mesmo que fez o “Bolero” – para criar sensações que concretizam os sentimentos que pretende passar.

O inacreditável desse disco é que as outras oito músicas que o compõe são tão boas quanto as duas mais conhecidas. A tristeza nunca foi tão bem definida quanto em “Para Dizer Adeus”. É uma música pesada, dolorosa: “Adeus/Vou pra não voltar/ E onde quer que eu vá/ Sei que vou sozinho…”. A voz de Edu Lobo, impecável, casa com o piano e ajuda a construir a atmosfera melancólica da canção. A voz de Tom, rouca e um pouco cansada, arrepia o mais frio dos seres humanos. O encontro vocal entre eles finaliza a canção mais emocionante do disco.

Falar de todas as músicas seria o mais justo, mas como o texto já está longo destaco “Moto-Contínuo”, uma declaração de paixão desnorteada: “Um homem pode ir ao fundo, do fundo, do fundo se for por você/ Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você/ Pode inventar qualquer mundo como um vagabundo se for por você/ Basta sonhar com você”. “Canção do Amanhecer”, “Vento Bravo” e “É Preciso Dizer Adeus” também são intocáveis como todo o resto do disco. Não existem reparos possíveis.

No geral, o que impressiona em Edu & Tom é o cuidado com todos os detalhes. Os instrumentos se casam com perfeição nos arranjos e cada nota e timbre é pensado arquitetonicamente. A genialidade e o domínio harmônico de Tom Jobim são ressaltados como nunca. Já Edu Lobo nasceu para cantar as músicas contidas nesse álbum. Ao escutar é possível perceber que a busca pela perfeição, aqui, foi contínua e obteve total sucesso. E é uma obra triste; de uma tristeza tão grande que se transforma em beleza. Quando se reúnem dois gênios com estilos diferentes e, ao mesmo tempo, com tantos pontos em comum o resultado só poderia ser o maior álbum de música brasileira de todos os tempos.

Nesse vídeo dá para sentir como foi o processo de gravação do álbum: