
Após cinco anos morando juntos, Joana e Matheus percebem que as coisas não funcionam mais e resolvem se separar. Alguns meses após o rompimento, Joana decide viajar para a França com o objetivo de começar uma nova vida longe do ex-marido. Matheus vai até o aeroporto se despedir e coloca um bilhete no bolso do casaco dela:
Estou em um táxi a caminho do aeroporto e tenho poucos minutos para lhe escrever algo que não pareça bobo, mas que transmita toda a intensidade dos cinco anos que passamos juntos. Só o faço para que você entenda como será difícil ficar longe de seu sorriso, acordar e não poder mais testemunhar seus olhos prestes a despertar, nem cobrir seus ombros nus arrepiados pelo frio da manhã ou sentir suas mãos que, sonolentas, tateavam por um abraço desesperado. Não sei como poderei passar imune à falta que sentirei de nossas conversas sinceras pela madrugada, nossas horas infindáveis de amor sem relógio, sem televisão, sem questões, sem porquês.
Não idealizamos um amor, nem sequer sabíamos ao certo o que estávamos fazendo. Éramos apenas duas pessoas perdidas que resolveram atracar seus corpos e almas em busca de um sossego vão. Sim, apesar de tudo, nos tornamos apenas um. Eu sabia, e ainda sei, relatar todos os seus sonhos e decepções. Consigo entender suas contradições e vejo em suas ações, por mais inesperadas, um esboço claro do que eu já previra antes. Conheço cada pedaço de seu corpo e cada ferida de sua alma. Explorei-os como alguém que busca inutilmente por qualquer resposta e tem a sede despropositada de conhecer o irreconhecível. As palavras estão mortas quando tento definir a importância de acordar, viver e dormir com você ao meu lado. As vogais e as consoantes escapam como que sugadas por um ralo. Talvez só o silêncio complacente e a melancolia levada às últimas conseqüências possam cumprir tal papel.
Hoje, no dia de nossa separação definitiva, julgo-me parcialmente morto. Espero que você tenha a consciência de que acaba de levar parte importante de tudo que sou. Só o que lhe peço é que carregue isso de forma natural, como se fizesse parte de você. Não a esqueça em qualquer canto, nem faça com que ela pese mais do que deveria. Lembre-se sempre que também carrego parte importante de você. Talvez seja esse o sentido da falência do amor: você fica com a parte que eu estava tentando me livrar, eu fico com a parte que você julgava indesejável. É uma troca justa. Somamos, assim, as nossas partes e nos tornamos pessoas melhores. Pessoas mais tristes, mais vazias, mais quietas, mas pessoas melhores. Às vezes acho que o objetivo do ser humano é chegar ao fim de seus dias com a certeza de que sempre foi sozinho e sabendo, de forma serena, que possui um vazio incomensurável. Só assim terá certeza de que encontrou tudo aquilo que era possível encontrar. E você, Joana, será parte fundamental desse meu encontro comigo e com o meu vazio. Obrigado por tudo.
Com o amor de sempre,
Matheus