Arquivo de Novembro, 2008

Mural

Novembro 27, 2008

- Nunca pensei que um dia diria isso, mas hoje ou amanhã irei para Belém, no Estado do Pará, vizinho da Floresta Amazônica. Do nada, fiquei sabendo em cima da hora e estou aguardando o horário do vôo e a reserva do hotel, ambos gentilmente cedidos pelo Governo do Estado do Pará para a realização de uma reportagem aprofundada sobre o cenário da pesca no Estado. Porra, eu nunca teria chance de ir para um lugar ermo desses – são cinco horas de vôo – se não fosse pelo ofício de jornalista. Descobri até que tem fuso-horário. Decididamente, escolhi a profissão menos errada.

- É engraçado como as pessoas têm se chocado menos com a situação em Santa Catarina do que se chocaram com o caso Eloá (alguém ainda se lembra?). Mas, na verdade, é o maior caos que eu me lembro de ter acontecido no Brasil nos últimos anos. Está tudo debaixo d’água. Há poucos meses, visitei, também como jornalista, as simpáticas cidades de Itajaí e Navegantes. Hoje, elas estão arrasadas. Para quem não sabe, os dois municípios são as maiores potências da pesca brasileira. Para se ter uma idéia, 90% das casas de Itajaí estão embaixo de lama e água e o porto está parado. Cenas dignas de ”Ensaio Sobre a Cegueira” estão estampadas nos jornais. Além das mortes e das pessoas que perderam tudo, o prejuízo para a economia brasileira é enorme. Milhões e milhões de reais provenientes da já comprometida indústria da pesca estão indo pelo ralo.

- O Radiohead acaba de confirmar duas datas para shows no Brasil: dia 20, no Rio de Janeiro, e dia 22, em São Paulo. 30 mil ingressos à venda para o show no Chácara do Jockey, o que eu acho muito pouco. Ou eles abrem novas datas ou vai dar confusão. Eu, no aguardo deste show desde que o Radiohead se tornou minha banda preferida, estarei no Rio dia 20 e em São Paulo dia 22. Fazer o que, né?

- Hoje tem show do Queen com Paul Rogers nos vocais e eu não vou. Não vou porque sou um fã xiita de Freddie Mercury. Ele era completo: compositor, vocalista, show man, arranjador, produtor, bicha louca e o diabo. O maior gênio da história da música pop. Desculpem-me, mas não quero nem ouvir e muito menos ver o Queen com outro vocalista, por melhor que ele seja.

Ouvindo: Radiohead, Interpol, Litle Joy, The Cure, The Smiths, The Withsundays, Charles Mingus, Cole Porter e George Gershwin

O último suspiro

Novembro 24, 2008

*Baseado em um diálogo real

Sentada na cadeira, contava histórias com a voz desgastada e oscilante. Atrapalhava-se em alguns devaneios, perdia o fio da meada, mas sempre retornava ao enredo com a memória fresca. As costas de suas mãos, enrugadas pelo tempo, movimentavam-se freneticamente enquanto ela narrava. Seus olhos, pequenos, quase fechados, permaneciam com uma umidade constante nos cantos, como uma lágrima prestes a ser formada e derramada. Vestia-se com um terno mostarda – incrivelmente moderno para seus 90 anos -, calçava uma sandália com tiras grossas e gabava-se de seus colares e pulseiras brilhantes.

Todos em volta da mesa prestavam atenção em cada minúcia de sua fala. Ali, compenetrada, contava seu fascínio perante o último suspiro da morte. Contava como seus pais morreram em seus braços e ela ouvira o mesmo e irremediável suspiro. “Precisa ver, o suspiro dos dois foi igualzinho”, repetia. Contava como fora duro testemunhar aqueles suspiros e como ela, a partir de então, passara a persegui-los. Tornara-se uma viciada. Era reconfortante estar presente no momento crucial.

Cada vez mais emocionada, narrava a vez em que passara por um acidente de moto e aproximara-se da vítima à beira da morte. Ficou próxima dele, pegou em suas mãos e ouviu mais uma vez aquele mesmo suspiro. Não importava se homem, mulher, voz grave ou aguda: o som, doce, era sempre o mesmo. Consolador, reconfortante, libertador. Certa vez, um vizinho solitário ficara muito doente. Fez questão de cuidar dele até o último momento.

Mas não era apenas ela quem perseguia o último suspiro. Ele também começou a persegui-la. Seu filho caíra de joelhos em seus pés após um ataque cardíaco. Sabia que o destino seria fatal, colocou o ouvido próximo dos lábios dele e ouviu mais uma vez aquele som encantador. Só depois sofria, e sofria muito, com todas aquelas perdas. Antes, porém, nada lhe importava: apenas o som etéreo e encantador. Perdera avós, pais, alguns filhos, primos, amigos. Ouvira o último suspiro de muitos e sentia-se privilegiada por isso.

Sua grande frustração era perder aquele momento. A irmã morrera sentada na cadeira de balanço, totalmente só, e demoraram horas para descobrir. “Morreu de velha, desligou”, lembra. Ela estava na cozinha, passando o café, e não ouviu o suspiro solitário da irmã. “Da mesma forma que nascemos e vivemos, morremos: sozinhos”. Hoje, a morte que mais a intriga é a dela mesma. “Será que ouvirei meu último suspiro?”.

Banda da semana

Novembro 19, 2008

Cake – “Love You Madly”

A tatear o ar

Novembro 17, 2008

Tomou consciência de seu infortúnio ao encontrá-la amparada em outros braços. Parou, olhou e suspeitou de que aquele era o momento-chave de uma existência até então insuportável. Extrairia dali as forças para desvanecê-la de seus pensamentos e inundar sua mente com outras definições imagéticas. Olhou mais uma vez, via os braços dele transpassar a cintura dela, as mãos dela tocar suavemente os cabelos dele. Observou a cena fixamente, sem sobressaltos, sentindo, pungente, cada traço de sua dor.

Naqueles longos minutos – suficientes até mesmo para tragar pacientemente seu cigarro – passou-lhe pela cabeça todos os erros que tinha cometido quando era ele quem estava naqueles braços. Refletiu e concluiu que se agora ela se contentava com outros braços era pelo fato dos seus não mais a servirem. Pensou que proteção era o único desejo e a única necessidade dela e que ele não soubera como envolvê-la em total e absoluta serenidade. Na cabeça dele, era óbvio, os braços que agora a abraçavam conquistaram o objetivo que ele falhara. Fechou os olhos e se viu mergulhado em cenários negros que comprovavam sua incapacidade de enxergar adiante. Ele era um fraco cujo passado não conseguia apagar. Sabia disso e não se conformava.

Apagou o cigarro, admitiu a derrota, virou-se de costas e abaixou a cabeça. Mas a cena ficara gravada e impregnada em sua íris para sempre. Não importava se de olhos abertos ou fechados, prosseguia enxergando a cena posterior; para sempre, para todo o sempre. Enquanto ainda estivesse respirando, enxergaria aquele abraço, aquelas intimidades, aquele maldito e silencioso beijo. Era como uma película que se repetia eternamente em uma sala de projeção abandonada. Não era uma imagem estática: a cena, sempre a mesma, tinha um movimento cruelmente harmônico. Ele enxergava ali a felicidade plena, sem a possibilidade, no entanto, de participar dela.

A cena se repetia, se repetia, se repetia… Um transe insuportável. Sem descanso, sem piedade. E ela, ela se movimentava cada vez mais graciosa, demonstrava estar cada vez mais feliz e realizada. Demonstrava em seu olhar de contentamento que ele era dispensável, que apenas havia sido um abrigo provisório em um momento oportuno. A cena se movimentava com velocidade cada vez mais indefinida. Uma tranqüilidade caótica que o perturbava por ser bela e surreal. O enquadramento pendulava lentamente como uma nau em meio ao mar revolto. As cores derramavam-se conforme o balanço da cena. Nada mais fazia sentido. Ele não a enxergava mais como ela era, só observava manchas multicolores dissolutas que se assemelhavam a um abraço vago, distante, impreciso…

Concentrou-se na imagem como nunca na tentativa de identificar a cena novamente. Percebeu que agora quem a abraçava era ele mesmo. Mas percebeu que, na verdade, não era mais ela quem protagonizava a cena. Percebeu que se tratava de um fantasma, de um vulto indefinido e mortalizado, que sumia a cada frame… E ele abraçava aquela sombra com todas as forças, tentava puxá-la para si e ela escorria-lhe de seus braços como uma tinta que fora jogada a esmo em uma tela em branco. Viu-se sozinho em meio à cena, a tatear o ar. Viu-se sem ter o que fazer com os braços e as mãos. Acendeu um cigarro – a fumaça serpenteava ao ritmo do enquadramento torto e tresloucado da cena – e se viu sozinho em um cenário que já não fazia mais qualquer sentido concreto. Nunca mais conseguiu identificar-se… Dissolveu-se até a última gota de sua existência…

Eu acredito no R.E.M

Novembro 12, 2008

rem1

Passava das nove da noite de segunda-feira quando recebi a ligação do meu amigo Helder dizendo que tinha credenciais para o primeiro show do R.E.M em São Paulo. Sai da aula de inglês, fui correndo para casa, tirei a fantasia de trabalho e coloquei jeans, tênis e camiseta. Encontrei com o Helder 21:30 e pegamos um táxi até o Via Funchal. Chegamos a tempo de tomar uma cerveja na porta e graças a Deus perdemos o show do Wilson Sideral. Depois disso, todas as palavras que seguem não têm força para expressar o que é o R.E.M no palco.

Tudo bem, experiência é importante. Mas mais do que isso, saber envelhecer bem, com classe e jovialidade, é o ingrediente principal. Raras são as bandas que podem se orgulhar de não pararem no tempo ou de não bancarem o ridículo depois de décadas na estrada. O R.E.M é uma das exceções da regra: pulam, dançam, fazem rock, mas não se caracterizam nem como dinossauros nem como decadentes metidos a descolados. Eles simplesmente sobem no palco e fazem música.

O impressionante das duas apresentações foi a força sonora absurda que surgia do palco. O som estava alto, muito alto. Pois é isso, um show de rock é um grito para despertar aqueles que dormem. Se nossa geração tem algum inimigo é a falta de paixão pelas coisas e pessoas. O show do R.E.M é uma catarse para sair da letargia. Michael Stipe dançando, pulando, cantando e sorrindo é a imagem do homem de quase 50 anos que envelheceu bem. Ele não é um moleque metido a rock star com uma garotinha(o) de 20 anos a tira colo nem um velho chato e emburrado: ele é Michael Stipe, vocalista do R.E.M, gay assumido e politicamente ativo sem ser chato como o Bono. E que puta vocalista: uma das melhores atuações ao vivo que já tive a oportunidade de assistir.

O show, basicamente, teve cinco músicas do novo e excelente álbum Accelerate. O resto, uma enxurrada de clássicos. Era como receber uma bofetada atrás da outra sem tempo para respirar. Tomava-se o primeiro tapa e, em seguida, já vinha outro na face oposta. Um atrás do outro, sistematicamente. Fica difícil escolher uma preferida. “Drive”, “Electrolite”, “Bad Day” e “Orange Crush” foram algumas que quase me fizeram chorar. “Everybody Hurts”, a música mais triste da história, arrancou lágrimas de metade das sete mil pessoas presentes.

E a coisa esquentou de verdade quando a banda tocou sucessos como “Imitation Of Life”, “The One I Love”, “It’s the End of the World As We Know It (And I Feel Fine)”, “Losing My Religion” e “Man On The Moon”. A facilidade dos refrões marcantes fazia com que o público quase cobrisse a voz de Stipe. Se isso não aconteceu, foi pela absurda massa sonora vinda do palco. Gritar “I Feel Fine” com todas as forças diante do fim do mundo é uma experiência maravilhosa. Na primeira noite, antes do bis, o público entrou em transe, batendo os pés no chão e gritando com todas as forças. Vi pessoas tapando os ouvidos por não suportarem o barulho. Incrível!

Mais do que um show, o R.E.M proporcionou aos que estiveram no Via Funchal uma experiência de intensidade sem limites. Um momento, pelo menos para mim, histórico. Em tempos em que a própria história parece recomeçar com a eleição de Obama (festejada por Stipe duas vezes durante os shows), a apresentação do R.E.M representa os bons motivos que ainda temos para viver e acreditar em alguma coisa…

Planeta Terra

Novembro 10, 2008

Rápidas impressões dos shows que assisti:

- Jesus and Mary Chain: é bem pessoal, admito, mas foi o melhor show da noite. Se eles tivessem tocado apenas “Head On” já valeria o ingresso. Achei incrível como o vocalista Jim Reid continua segurando bem as pontas em cima do palco. O engraçado é que a maioria das pessoas presentes não conhecia a banda, eu parecia um E.T cantando “Happy When It Rains”. Faltaram apenas as músicas do meu álbum preferido: Stoned & Dethroned.

- Spoon / Breeders: A apresentação do Spoon foi impecável: rock direto e sem rodeios. Assisti apenas três músicas do Breeders, mas já deu pra sentir que fizeram o show mais enérgico e simpático da noite.

- Bloc Party: A banda fez um show muito bom no palco principal. Fiquei em dúvida se veria o Bloc Party ou o Breeders, mas a curiosidade foi maior. Além disso, achei o último disco, Intimacy, muito bom. Aprovado.

- Kaiser Chiefs: sempre considerei o Kaiser Chiefs como uma banda extremamente divertida, nada mais. E eles não decepcionaram, mostrando uma presença de palco muito intensa. Mas a energia característica das músicas se perde um pouquinho ao vivo. Mesmo assim, foi um puta show.

- Offspring: Suportei três músicas. A banda é uma merda, chega a ser engraçado ver um tiozão cantando músicas de adolescentes de 15 anos com toda a vontade do mundo.

Obama e as simbologias

Novembro 5, 2008

A vitória de Obama, mais do que qualquer coisa, é simbólica. E simbologia é importante, já que é ela que dá sentido à realidade. Um negro ser presidente em um país historicamente racista e conservador tem força simbólica. Um candidato que discursou a favor do estabelecimento da paz e da quebra das barreiras étnicas, sociais e políticas do mundo também. Mas, acima de tudo, a derrota deprimente de Bush, o presidente norte-americano mais impopular da história, é de uma importância incrível para a nossa e as futuras gerações. Desaprovar guerras, conservadorismos, egocentrismos e preconceitos é de uma força simbólica incrível, mesmo que não funcione tão bem na prática.

A importância da vitória de Obama não será medida pelo o que de concreto mudará no mundo e sim por tudo aquilo que ocasionará e já ocasionou sua vitória. O ar fica mais leve, os discursos das autoridades do mundo se amainam, inimigos dos Estados Unidos revêem suas opiniões, Hugo Chaves se dispõe ao diálogo e os jovens norte-americanos saem às ruas para comemorar. Quando o homem que comanda o país central para as relações do planeta não é mais um tapado, conservador e recalcado já se ganha muito. Esperança pode ser uma ilusão, mas não existem provas de que se iludir faça mal. Afinal, nossa realidade é construída apenas e tão somente por símbolos. Obama, hoje, é o mais importante deles.

Mural

Novembro 4, 2008

- A corrida do último domingo entra como o melhor momento esportivo deste século até aqui. Se em 2007 o campeonato já foi absurdo, este ano superou todas as expectativas.

- Se tudo der certo, a eleição de Obama será a maior vitória dos negros nos Estados Unidos após a invenção do jazz. Mas sem grandes expectativas de uma administração brilhante. Livrar-se de Bush é maravilhoso, mas o Federal Reserve e a família Rockefeller continuarão lá, intocáveis.

- Assisti cinco filmes da Mostra Internacional de Cinema. Dois deles muito bons: My Winnipeg, documentário surpreendente sobre a cidade canadense, e Vicky Cristina Barcelona, mais um filme genial de Woody Allen. Agradecimento a uma certa produtora que me disponibilizou ingressos.

- A bolsa de valores do mundo está tão desregulada quanto as estações do ano. Não se sabe mais quando é verão, outono ou inverno. No caso financeiro, não é possível adivinhar se haverá ou não superávit no fim do dia. Mudou algo para você? Pra mim não, já que não precisei sair do País. A verdade é que estamos em crise mundial. Já pararam para pensar como o homem consegue se foder sozinho? Se a crise é mundial, todo mundo está fodido. Mas pra quem estamos devendo? Pra Deus? O dinheiro é invisível. Irônico, não?

Ouvindo: Trio Toykeat, Dave Brubeck Quartet, Bill Conti, Mahler, Jesus and Mary Chain, Oasis, Flaming Lips e Guinga