Arquivo de Outubro, 2008

As certezas e incertezas de Leila Diniz

Outubro 30, 2008

Nos últimos meses foram lançados dois livros biográficos de uma das mulheres brasileiras mais importantes do século XX. “Leila Diniz – Uma revolução na praia”, de Joaquim Ferreira dos Santos, e a reedição de “Toda mulher é meio Leila Diniz”, de Mirian Goldenberg, confirmam a relevância dela para a formação da personalidade feminina nos dias de hoje. E não tem como negar: uma frase de Leila Diniz é mais libertadora para as mulheres do que a soma de todas as temporadas de Sex and the City.

Leila chocava o País na época da ditadura por ter sacado que o livre-arbítrio é um direito do ser humano e não apenas dos homens. Falar os palavrões que lhe vinham na cabeça, transar com todo mundo, mas não com qualquer um, passear grávida de biquíni nas praias de Ipanema e deixar-se fotografar amamentando: coisas normais nos dias de hoje e vistos como absurdos nas décadas de 60 e 70.

O maravilhoso em Leila Diniz é que ela de fato era mulher, diferente de algumas que se dizem modernas, mas que só se portam assim para se parecerem com os homens e serem respeitadas como eles. Estou cansado de ver moças com posturas libertárias: não casam, trabalham 14 horas por dia, são donas de si, mas só querem ter um cargo idiota em uma grande empresa para pisar em seus funcionários. Ou outras, que saem trepando com todo mundo e com qualquer um para se sentirem mais gostosas. Leila, não. Como ela mesma dizia, trepava com todo mundo, mas não com qualquer um (repare na riqueza dessa metáfora, serve para tudo). Ela era moderna, libertária e inteligente. Os dois primeiros adjetivos não servem de nada sem o último.

Provavelmente, se ainda viva, Leila seria a típica mulher com quem eu teria um caso. Sairíamos durante alguns meses, nos divertiríamos absurdamente e teríamos dois destinos: ou eu me apaixonaria e quebraria a cara ou nós dois nos apaixonaríamos e viveríamos uma relação doentia. De qualquer forma, eu me apaixonaria e não daria certo.

O grande desafio deixado por Leila Diniz para as mulheres não é o de ser como ela. Praticamente todas são um pouco Leila hoje; o difícil era ter sua personalidade nos anos 60 e 70. O verdadeiro desafio imposto por Leila é viver e ter coragem, como ela, para concretizar o que se acredita independente de convenções (até o ideal de mulher livre, hoje, se tornou uma convenção, por isso mulheres ironicamente machistas me atraem). Para saber o que se precisa é necessário ser inteligente, para concretizar esses reais desejos é preciso ser Leila Diniz. Libertem-se garotas, se querem transar com todo mundo, que não seja com qualquer um. Cuidado com as armadilhas: ser uma mulher à frente de seu tempo está muito além das aparências – é preciso ter algumas certezas e muitas incertezas bem resolvidas.

Minha irmã grávida – Parte Final

Outubro 28, 2008

Quando você observa uma recém-nascida despertar, após observá-la por quase dez minutos, percebe que a urgência não existe. Minha relação com Isabella ainda é a do olhar. Ela ainda não apresenta reações, curiosidades sobre o que a rodeia ou sentimentos formados. Está vazia, mas já ávida, como todo ser humano, pelo processamento de informações. Seus instintos básicos – chorar, mamar, dormir e fazer cocô – predominam sobre qualquer outra coisa. E o processo de humanização é constante e fascinante. O que demoraria meses para um adulto entender, ela logo aprenderá em um minuto.

Quando nasce um bebê, a revitalização da família é incrível. O ambiente fica mais sereno, as idéias são mais ponderadas e a esperança aumenta. Ver um ser que ainda se formará desperta uma espécie de conforto, como se a sua própria vida recomeçasse. A urgência fica para trás, o imediato já não é mais a regra. O futuro tem um propósito que antes não tinha. Para que a pressa se o desenvolvimento é natural?

A idéia da solidão se desvanece. É como se você pensasse que uma companhia está assegurada para os anos que se aproximam e que nada poderá tirar isso de você. Óbvio que é uma noção falsa: ela vai crescer, pensar, envolver-se em relações humanas e se individualizar como todos nós. Mas, neste exato momento, ela precisa de alguém sempre ao seu lado. Vive-se essa verdade sem se preocupar com a urgência. Essa é a alegria de ser tio e imagino que essa felicidade deva ser mil vezes mais intensa para os pais. Algo inimaginável.

O melhor de ser tio é a expectativa de acompanhar o desenvolvimento desde os primeiros dias de uma pessoa que você de fato ama: o amor por alguém que não faz nada para recebê-lo é muito mais verdadeiro do que aquele cobrado. Cobrar um sentimento de alguém é injusto; recebê-lo sem motivos concretos é o que mais se aproxima da verdade. Não se ama alguém pelo o que ela é ou fez: ama-se alguém e ponto. Admirar, se encartar, se apaixonar e amar são verbos diferentes, apesar de quase nunca conseguirmos identificá-los.

Minha cabeça muda toda semana, mas a chegada de um novo parente tão próximo extrapola qualquer reavaliação sobre as coisas: tudo ganha um novo sentido. Imagine o dia em que me apaixonar pela barriga da minha própria mulher… Se é que isso um dia vai mesmo acontecer. Mas nada de urgência; sem nenhuma pressa…

Banda da semana

Outubro 22, 2008

The Beach Boys – “God Only Knows”

O circo armado

Outubro 21, 2008

Vamos lá. Mais um circo. O picadeiro armado, um monte de palhaço. O seqüestro da tal Eloá virou piada, como é o destino de tudo neste País. Um estudo antropológico detalhado seria interessante: prato cheio para concluir como o ser humano é bizarro. Mas que preguiça de falar sobre isso, de ouvir o assunto, de escutar os amigos de Eloá entoarem sua música preferida enquanto mais um corpo é enterrado. Que preguiça…

Obs: 27 mil pessoas passaram pelo velório de uma menina completamente desconhecida. Assistindo pela TV, era possível observar boa parte delas tirando fotos do caixão com seus celulares.  Seria para colocar no orkut? Acho que essa é a questão mais relevante de mais um de tantos assassinatos passionais que ocorrem no Brasil. Nas últimas duas semanas, três garotas foram mortas pelos seus ex-namorados. Uma na Praia Grande e duas em Fortaleza. O que Eloá tem de especial além de ser a protagonista do circo?

Banda da Semana

Outubro 14, 2008

Rolling Stones – You Can´t Always Get What You Want

A ética segundo Gregory House I

Outubro 8, 2008

Nos últimos dias, concluí que os doze meses de aula de ética jornalística cursados na faculdade não valeram sequer um capítulo da série House. Em exatos 43 minutos, o médico especialista em diagnósticos e sua equipe nos fazem pensar muito mais em ética do que as elucubrações desvirtuadas do meu antigo professor. A história é simples e sempre a mesma: um paciente chega ao hospital, ninguém sabe o que ele tem e a equipe de House precisa descobrir a doença para curá-lo.

A frase principal da série, repetida incontáveis vezes, é que todo mundo mente. Nenhuma teoria sobre ética pode prescindir dessa máxima: se existe uma verdade universal é a de que todos nós mentimos. House, o homem que criou a expressão, também mente, com a diferença de não se culpar por isso e de ser franco ao falar sobre o assunto. Sua ética é baseada, primeiramente, em uma visão pessimista, realista e concreta da realidade. A partir daí, ele se afasta de contatos sociais íntimos e age exatamente de acordo com o que acredita. Sua visão do concreto, pouco deturpada por influências sociais, é quase sobre-humana.

A missão de House é salvar vidas. E, convenhamos, o que não é válido para salvar uma pessoa? Ele tem consciência desse paradigma e não mede esforços para atingir seu objetivo. Quebra todas as regras do hospital e da medicina tradicional, ignora burocracias e sentimentos de terceiros. Por vias tortas, alcança seu intuito sem se importar em ser laureado por isso. House odeia elogios e agradecimentos. Para ele, não fez mais que a obrigação. Sua vaidade é muito mais alimentada pelo conhecimento que possui do que pelos atos que concretiza. Só os inseguros e com baixa auto estima precisam de confetes. Ele não está interessado em ser reconhecido pelo que faz, está interessado em realizar o que julga certo, mesmo quando está errado. O erro, para ele, é necessário para descobrir os caminhos para chegar ao acerto.

O limite da sinceridade

House não economiza em sinceridade, por isso é infeliz e foge do contato humano. Fala, das formas mais rudes e inteligentes possíveis, exatamente aquilo que acredita. Não se importa em jogar na cara de seu interlocutor seus piores defeitos e fraquezas: os cita com desprezo e pena da espécie humana, sabendo que também os têm. Fala sempre com dor, pois tem consciência de que precisa reprimir suas próprias mazelas para não sair de seu padrão intocável de ética. Outro papel que lhe cabe é incomodar e gerar desconforto para que as pessoas saiam da letargia do dia-a-dia e despertem para o que verdadeiramente são. Mais do que ninguém, House sabe que a maioria vive como zumbi, fato que ele não aceita: é melhor sofrer desperto do que ser feliz anestesiado. Ser exatamente o que é: essa é a luta diária do médico.

House e as mulheres

Boa parte de sua visão da realidade foi construída pela falência da relação com a mulher que ama. Ao ser abandonado pela esposa, logo após uma cirurgia na perna que o deixou manco, o médico percebeu que jamais poderia amar outra mulher. Consciente de seu infortúnio, distancia-se de todas as mulheres de seu círculo e passa a aliviar suas necessidades sexuais com prostitutas e filmes pornográficos. Existe algo mais ético que isso? Existe forma mais correta de não produzir um casamento infeliz? Mesmo quando procurado por belas mulheres, não demora a jogar-lhes na cara o que sente e afastá-las de seu convívio.

Quando sua ex-esposa, já casada com outro homem, retorna ao seu círculo social, ele deixa claro que a ama, claro que sempre de forma ácida e irônica. Aguarda pelo arrependimento da mulher, porém se nega a retornar aos braços dela por saber que não daria certo. Sabe de suas limitações como companheiro e deixa a ex-mulher para o homem que realmente poderia cuidar dela. A ama mais do que deveria amar e é nesse momento que abdica totalmente da convivência humana.

O caráter ideal

House seria a construção do caráter ideal. Falível, como todo ser humano, mas que acredita e age baseado em inteligência, raciocínio e experiência de vida. Seu conhecimento absoluto da medicina e sua segurança inabalável o fazem ser o melhor em sua profissão. Mente quando tem de mentir, consciente da importância do ato, é grosseiro quando tem que ser, irônico quando necessário. Gosta de amedrontar e chocar as pessoas para provar que sempre está correto e que a humanidade é fundamentalmente hipócrita. As pessoas que não gostam dele são aquelas que não querem enxergar suas próprias verdades, as que o amam buscam de alguma forma entender-se melhor. O impossível, seja para um(a) canalha ou um ser honesto, é não admirá-lo.

A que ponto chegou a cegueira

Outubro 2, 2008

Hoje perdi o humor ao ler que a Federação dos Cegos dos EUA planeja uma manifestação no dia da estréia do filme “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles. O argumento: “É um retrato ofensivo e assustador que pode minar os esforços de integrar os cegos à vida em comunidade. O filme retrata cegos como monstros, e vejo isso como uma mentira”, disse o presidente da tal Federação.

Será que esse babaca sabe o que é uma metáfora? Será que ele não percebeu que a cegueira a que se refere o filme e o livro vai muito além da falta de visão? Ou será que ele é esperto e só quer que sua associaçãozinha apareça um pouco na mídia? Meu Deus do Ceú. Quando leio uma coisa dessa me dá desespero. Isso é burrice, estupidez, ignorância. É falta de sensibilidade, de humanidade, de racionalidade. Estamos no século XXI e as pessoas estão cada vez mais estúpidas? Essa Federação é realmente formada por cegos em todos os sentidos possíveis da palavra. Se eu fosse cego teria vergonha de ser representado por ela.

Promessa idiota

Outubro 1, 2008

Prometi no fim do ano passado que em 2008 iria focar mais no meu trabalho, deixando assuntos pessoais e sentimentais de lado. Só não imaginei que ele iria me tomar tanto tempo e que ainda teria que dividi-lo com os assuntos que presumi ignorar. Arrependo-me amargamente da promessa. Devo ter dormido, em média, cinco horas diárias até aqui. Minha mãe diz que eu vou morrer com 30 anos…