Nos últimos meses foram lançados dois livros biográficos de uma das mulheres brasileiras mais importantes do século XX. “Leila Diniz – Uma revolução na praia”, de Joaquim Ferreira dos Santos, e a reedição de “Toda mulher é meio Leila Diniz”, de Mirian Goldenberg, confirmam a relevância dela para a formação da personalidade feminina nos dias de hoje. E não tem como negar: uma frase de Leila Diniz é mais libertadora para as mulheres do que a soma de todas as temporadas de Sex and the City.
Leila chocava o País na época da ditadura por ter sacado que o livre-arbítrio é um direito do ser humano e não apenas dos homens. Falar os palavrões que lhe vinham na cabeça, transar com todo mundo, mas não com qualquer um, passear grávida de biquíni nas praias de Ipanema e deixar-se fotografar amamentando: coisas normais nos dias de hoje e vistos como absurdos nas décadas de 60 e 70.
O maravilhoso em Leila Diniz é que ela de fato era mulher, diferente de algumas que se dizem modernas, mas que só se portam assim para se parecerem com os homens e serem respeitadas como eles. Estou cansado de ver moças com posturas libertárias: não casam, trabalham 14 horas por dia, são donas de si, mas só querem ter um cargo idiota em uma grande empresa para pisar em seus funcionários. Ou outras, que saem trepando com todo mundo e com qualquer um para se sentirem mais gostosas. Leila, não. Como ela mesma dizia, trepava com todo mundo, mas não com qualquer um (repare na riqueza dessa metáfora, serve para tudo). Ela era moderna, libertária e inteligente. Os dois primeiros adjetivos não servem de nada sem o último.
Provavelmente, se ainda viva, Leila seria a típica mulher com quem eu teria um caso. Sairíamos durante alguns meses, nos divertiríamos absurdamente e teríamos dois destinos: ou eu me apaixonaria e quebraria a cara ou nós dois nos apaixonaríamos e viveríamos uma relação doentia. De qualquer forma, eu me apaixonaria e não daria certo.
O grande desafio deixado por Leila Diniz para as mulheres não é o de ser como ela. Praticamente todas são um pouco Leila hoje; o difícil era ter sua personalidade nos anos 60 e 70. O verdadeiro desafio imposto por Leila é viver e ter coragem, como ela, para concretizar o que se acredita independente de convenções (até o ideal de mulher livre, hoje, se tornou uma convenção, por isso mulheres ironicamente machistas me atraem). Para saber o que se precisa é necessário ser inteligente, para concretizar esses reais desejos é preciso ser Leila Diniz. Libertem-se garotas, se querem transar com todo mundo, que não seja com qualquer um. Cuidado com as armadilhas: ser uma mulher à frente de seu tempo está muito além das aparências – é preciso ter algumas certezas e muitas incertezas bem resolvidas.

