R.E.M – Hollow Man:
R.E.M – Hollow Man:
Quais silenciosas palavras se sustentam quando as pronuncia? Quais revelações plausíveis são ditas com um único olhar? Cada afirmação, cada abstinência, é tudo que desejo. É a vontade de dizer e não dizer. De simplesmente compartilhar segredos e carícias. Conhecer por completo todos os seus desejos, agarrar seus cabelos com força e, até o limite de minha serenidade, recostá-la junto ao meio peito. Deitar-me sobre ti sem reservas, abraçá-la como se abraça o ar. Sentir como se o vento cortasse meu rosto e o sol me envolvesse por inteiro. Beijá-la sem pressa, sem exaltações desnecessárias. Alcançar, enfim, a tranqüilidade que tanto aspiro. O reconforto diante de um mundo em que não mais acredito. A construção de um sentimento e não apenas o desespero da fuga momentânea. E, assim, leve, respirar na ausência de ar… Tornar a amar quando só resta desesperança… Sentir-me vivo diante da inexistência…
Em 1962, Paulo Freire provou ser um gênio. Em 45 dias, ensinou 300 cortadores de cana a ler e escrever e demonstrou que seu método de alfabetização funcionava na prática muito melhor do que qualquer outro já teorizado. A importância de seu legado para a pedagogia mundial foi atestada pelo convite para lecionar em diversas universidades prestigiadas do mundo, pela publicação de seus livros em inúmeras línguas e por, atualmente, sua obra ser estudada em 90 países. A sua pedagogia, que prega consciência popular e liberdade, foi sufocada pelo Regime Militar e deixada de lado pelos homens do poder dos dias de hoje. Mas seu pensamento continua vivo. Vivo e, muitas vezes, distorcido.
Um texto da revista Veja intitulado “Prontos para o século XIX” aponta algumas dessas distorções e mostra professores acéfalos que ensinam aos alunos, sem os fazer pensar, a cartilha de que a máquina e a tecnologia destroem o homem e que a lógica de mercado é perversa. A matéria fala de alguns colégios em que os educadores se esquecem do seu verdadeiro papel e transformam a lousa em palanque. Com tal postura, eles definem o trabalho de toda a vida de Paulo Freire em uma única palavra: ideologia.
Isso ocorre pelo fato de muitos desses professores apresentarem um pensamento raso. Mas é bom deixar claro que nenhum desses profissionais citados na matéria de Veja são tão estúpidos quanto os jornalistas e o editor do texto. Os jornalistas, que precisam do salário no fim do mês, provavelmente escreveram outro conteúdo e acabaram surpreendidos quando leram o resultado final: um texto horroroso, sem apuração, sem entrevistas consistentes, sem sentido: tudo menos jornalístico. De um anacronismo patético. Será que alguém ainda acredita nas besteiras que Veja publica?
Em determinado trecho, a publicação define Paulo Freire da seguinte maneira: “autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização, um dos personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental”. Sim, ele pregava que toda educação era política, era um homem marxista e, em minha opinião, seu maior defeito era exatamente misturar mais do que deveria política com educação, o que é quase como jogar em um mesmo recipiente azeite e água. Considero que consciência de classe ou de vida se adquire pensando abertamente; qualquer ideologia orientada é, na verdade, um desuso do pensamento. Mas Paulo Freire, que como qualquer um tinha defeitos, foi fundamental para abrir a cabeça humana para novas formas de educar, mais eficientes e menos inúteis e sem graça do que as tradicionais.
Veja, totalmente envolvida em ideologias do século XIX, mostra que é igualzinha aos professores que acham que falar mal do capitalismo é suficiente para se fazer pensar. São apenas duas pontas diferentes de uma mesma estupidez. Assusta ler em uma revista com tiragem de 1 milhão de exemplares uma bobagem como essa: “estamos em um mundo em que a empregabilidade e o sucesso na vida profissional dependem cada vez mais do desempenho técnico, do rigor intelectual, da atualização do pensamento e do conhecimento”. Rigor intelectual? Atualização do pensamento e do conhecimento? Alguém enxerga realmente isso no mundo de hoje? A maioria das pessoas que eu conheço trabalha apenas para ganhar dinheiro e não tem necessidade de ser nenhum gênio para se dar bem. Conheço sujeitos incrivelmente burros que tiram salários bem polpudos no final do mês. Mesmo o editor da matéria em questão me parece um ser bem estúpido e deve ter uma bela remuneração. No mercado de trabalho de hoje, mais do que qualquer outra coisa e sem generalizar, se dá bem quem engole mais sapos sem engasgar.
Veja deixou de fazer jornalismo há muito tempo, mas se superou nesta matéria. A jogada da revista é apresentar fatos absurdos – como professores idiotas que dizem aos alunos que todo empresário é um monstro – para defender um ponto de vista ainda mais imbecil. E assim vamos caminhando. É imbecilidade para cá e para lá. É a velha historinha de esquerda e direita que nunca nos levou a lugar nenhum. A obra de Paulo Freire, por mais controversa e falível, faz pensar. O texto de Veja e a postura dos professores têm o claro objetivo de tornar as idéias únicas e fazer com que as pessoas pensem cada vez menos. Será que os editores de Veja realmente acreditam no que escrevem? Será que os jornalistas que assinaram realmente sabem do que se trata o trabalho de Paulo Freire? Será que, agora, eles estão envergonhados? Eu estaria.
“Criar o que não existe ainda deve ser a pretensão de todo sujeito que está vivo” Paulo Freire
Radiohead – “Knives Out”:
Após cinco anos morando juntos, Joana e Matheus percebem que as coisas não funcionam mais e resolvem se separar. Alguns meses após o rompimento, Joana decide viajar para a França com o objetivo de começar uma nova vida longe do ex-marido. Matheus vai até o aeroporto se despedir e coloca um bilhete no bolso do casaco dela:
Estou em um táxi a caminho do aeroporto e tenho poucos minutos para lhe escrever algo que não pareça bobo, mas que transmita toda a intensidade dos cinco anos que passamos juntos. Só o faço para que você entenda como será difícil ficar longe de seu sorriso, acordar e não poder mais testemunhar seus olhos prestes a despertar, nem cobrir seus ombros nus arrepiados pelo frio da manhã ou sentir suas mãos que, sonolentas, tateavam por um abraço desesperado. Não sei como poderei passar imune à falta que sentirei de nossas conversas sinceras pela madrugada, nossas horas infindáveis de amor sem relógio, sem televisão, sem questões, sem porquês.
Não idealizamos um amor, nem sequer sabíamos ao certo o que estávamos fazendo. Éramos apenas duas pessoas perdidas que resolveram atracar seus corpos e almas em busca de um sossego vão. Sim, apesar de tudo, nos tornamos apenas um. Eu sabia, e ainda sei, relatar todos os seus sonhos e decepções. Consigo entender suas contradições e vejo em suas ações, por mais inesperadas, um esboço claro do que eu já previra antes. Conheço cada pedaço de seu corpo e cada ferida de sua alma. Explorei-os como alguém que busca inutilmente por qualquer resposta e tem a sede despropositada de conhecer o irreconhecível. As palavras estão mortas quando tento definir a importância de acordar, viver e dormir com você ao meu lado. As vogais e as consoantes escapam como que sugadas por um ralo. Talvez só o silêncio complacente e a melancolia levada às últimas conseqüências possam cumprir tal papel.
Hoje, no dia de nossa separação definitiva, julgo-me parcialmente morto. Espero que você tenha a consciência de que acaba de levar parte importante de tudo que sou. Só o que lhe peço é que carregue isso de forma natural, como se fizesse parte de você. Não a esqueça em qualquer canto, nem faça com que ela pese mais do que deveria. Lembre-se sempre que também carrego parte importante de você. Talvez seja esse o sentido da falência do amor: você fica com a parte que eu estava tentando me livrar, eu fico com a parte que você julgava indesejável. É uma troca justa. Somamos, assim, as nossas partes e nos tornamos pessoas melhores. Pessoas mais tristes, mais vazias, mais quietas, mas pessoas melhores. Às vezes acho que o objetivo do ser humano é chegar ao fim de seus dias com a certeza de que sempre foi sozinho e sabendo, de forma serena, que possui um vazio incomensurável. Só assim terá certeza de que encontrou tudo aquilo que era possível encontrar. E você, Joana, será parte fundamental desse meu encontro comigo e com o meu vazio. Obrigado por tudo.
Com o amor de sempre,
Matheus
Há quatro meses não ligo a televisão de casa. Não é idealismo, odeio idealismos. A questão é que, por falta de tempo e de interesse, fui me distanciando cada vez mais. Como não tenho TV a cabo, penso que a Internet cumpre com tranqüilidade o papel de me entreter. Seleciono nela diversão e informação ao meu gosto e não preciso depender da programação. Já havia passado pela experiência de ficar muito tempo sem assistir televisão, mas isso foi em um momento da minha vida em que eu estava – e admito que foi ótimo – desligado de tudo. Agora, consciente, consigo perceber a experiência mais nitidamente.
A primeira coisa é perder assunto com gente desinteressante. Pessoas que só falam de determinado programa, comercial ou capítulo de novela. Não existe possibilidade de diálogo: ela pergunta e eu simplesmente digo que nunca ouvi falar daquilo. Parece impossível, mas não sei o nome da novela das oito, não assisti nem um minuto da propaganda eleitoral (a não ser a campanha de candidatos esdrúxulos que vi na Internet – convenhamos, a unica coisa aproveitável desse circo) e perdi quase tudo que se passou na Olimpíada de Pequim.
Não sei nada sobre o último escândalo de Brasília ou quando estréia o próximo Big Brother. Jornal Nacional, pra mim, é mais inacessível que panfleto de sindicato. Tornei-me um completo tapado no mundo televisivo. Não vejo mais nada de estúpido que passa na MTV, nem os cenários bregas do programa Silvio Santos. Não tenho mais medo de São Paulo, pois passo longe de programas policiais, não vejo mais temas irrelevantes serem tratados como importantes e até perco as ótimas piadas do CQC. A política não se transformou em mera fofoca no meu mundo: ela simplesmente desapareceu. A realidade passou a ter proporções muito mais abrangentes.
Sinto que passei a ser mais protagonista da minha vida. A vivê-la de fato e não me espelhar em nada para decidir o que devo fazer, como devo agir e o que é ser um vencedor ou um derrotado. Percebi que não assistir TV é abrir mão de uma vida que não existe para viver a que realmente existe. É quase a mesma coisa que deixar de ser viciado em drogas ou esquecer uma paixão doentia: os olhos se abrem para outras perspectivas. Quase como se a cultura alternativa se transformasse em mídia de massa e a mídia de massa se transformasse em cultura alternativa. Percebi que quem cria a realidade somos nós, mais ninguém. Com a Internet basta escolher. É a verdadeira e unica democracia possível. Percebi tudo isso mesmo ficando, no passado, pouco tempo sentado no sofá mudando de canal. Imagine as pessoas que passam horas e horas na frente da tela?
Quem reclama de que só passa porcaria na televisão tem que aprender que ela é descartável. Você, só você, pode escolher o que quer ou o que não quer. Fico com a Internet, com o meu DVD, e tenho total liberdade de me entupir com o entretenimento que eu escolher. Quando a Internet substituir de vez a televisão (isso já seria possível com um modelo de TV digital decente) e as pessoas perceberem o poder que têm em mãos algo muito maluco vai acontecer… Eu estou ansioso para saber o que…
Pela raiva de não ter conseguido ir ao show, fico com The Hives essa semana. Ao vivo eles devem ser absurdamente divertidos, como essa música: “Tick Tick Boom”.
“O Dicionário da Corte de Paulo Francis” é um daqueles livros para se ler sem ordem. Abre-se uma página ao acaso e lá está uma definição genial de Paulo Francis. Organizado por Daniel Piza, as frases demonstram as contradições do jornalista. É possível ler desde bobagens inteligentissímas até opiniões sóbrias e bem estruturadas. A que mais me chamou atenção foi a definição de fumar:
“O primeiro cigarro da manhã para mim, depois de um café forte, enche os pulmões, dopa os bichos, e a sensação é de que estou sendo narcotizado de leve e há um modesto êxtase, e, mais, a sensação de que não preciso de ninguém para meu conforto e prazer corporal. Há muito de sexual na experiência. Os pós-refeições, almoço e jantar, depois que o organismo foi preenchido de outras substâncias que devem cortar o efeito do cigarro, são quase tão deliciosos, justamente por restabelecerem a intoxicação. O cigarro é também um companheiro de nossa solidão. Quando se está muito só, com o sentimento de estar longe de tudo, no sentido real e figurativo, acender um cigarro é um microorgamo que nos dá no pulmão, a fumaça que nos enche a vista, o cheiro perfumado, o gesto de levá-lo a boca e tirá-lo nos diminui o vácuo d’alma. Escrever fumando me dá maior certeza. E finalmente o cigarro é ter alguma coisa para fazer. Mais e mais não temos o que fazer. A tecnologia eliminou grande parte do trabalho braçal. A informática, o mental.” Paulo Francis
É louvável que um diretor consiga realizar um filme tão ruim quanto “Os Desafinados”. Principalmente quando aborda uma das histórias mais fascinantes da cultura brasileira. É ainda mais louvável conseguir tratar de temas como bossa nova, cinema novo e ditadura de maneira tão rasa e desnorteada. A miscelânea do roteiro é tão absurda que mistura eventos como o histórico show do Carnegie Hall, em Nova York, nos anos 60, com o sumiço do pianista brasileiro Tenório Jr. na Argentina, em meados de 1970. Os acontecimentos, sem nenhum tipo de relação temporal, desdobram-se na tela jogados ao vento. O diretor utilizou as histórias a partir da segunda metade do século XX que julgava mais interessantes e resumiu em duas horas de filme. E essas duas horas parecem se multiplicar: o ritmo do filme é pavoroso, da metade para frente o enredo se arrasta e a vontade é sair do cinema.
Além disso, os clichês estão presentes em todos os momentos. Quem conhece minimamente a bossa nova sairá do cinema chocado diante de tamanho lixo. Aqueles que nunca ouviram falar podem se encantar falsamente com a história, já que é realmente tarefa das mais árduas destruir um período tão rico. Mas Walter Lima Jr. foi impiedoso e conseguiu estupidificar o movimento por completo.
Algumas coisas quase se salvam no meio da confusão. O personagem de Selton Mello é interessante e cria algumas situações inteligentes e bem sacadas, Cláudia Abreu – apesar da atuação mediana – está absolutamente linda. Algumas de suas aparições são desconcertantes. Mas sua personagem é tão besta e artificial quanto a de Rodrigo Santoro. Os dois protagonizam um romance água com açúcar dos mais ralos e chatos que me lembro. A bossa nova é o pano de fundo de todo esse melodrama insosso. O pior é a tentativa canalha de parecer politicamente incorreto e de esquerda: é Globo Filmes, o que eu esperava também, não? Resultado: o pior filme que assisti neste ano e uma aula de como não se fazer um roteiro.
Ao domingos, no fim da noite, tentarei sempre postar alguma música da banda que mais escutei durante a semana. Nesta primeira, “Warsaw”, do Joy Division: