Afirmar qualquer coisa com certeza absoluta é quase sempre sinal de ignorância, mas me arrisco a dizer que o álbum Edu & Tom, gravado em 1981, é o melhor disco da história da música popular brasileira com sobras. Pelas minhas contas, só neste ano, escutei essa obra-prima mais de 60 vezes. Sei todas as letras, conheço as melodias, decorei até as harmonias. E, mesmo assim, não canso.
Para começo de conversa, um álbum que reúne em seu track list “Luiza” e “Chovendo na Roseira” já tem que ser observado como um fenômeno. A primeira, em minha opinião, é a música brasileira mais sofisticada e poética já composta. Parece uma valsa vienense com toques refinados do romantismo, mas prossegue popular até as raízes: difícil explicar. Alguns trechos têm alto valor poético, como o meu preferido: “Vem cá Luiza/ Me dá tua mão/ O teu desejo/ É sempre o meu desejo/ Vem me exorciza/ Me dá tua boca/ E a rosa louca/ Vem me dar um beijo/ E um raio de sol/ Nos teus cabelos/ Como um brilhante/ Que partindo a luz/ Explode em sete cores/ Revelando então/ Os sete mil amores/ Que eu guardei somente/ Pra te dar Luiza”. É um absurdo ou não é?
“Chovendo na Roseira”, por sua vez, deveria ser vista – muito mais que uma música – como um quadro pintado por notas musicais. É inacreditável o poder pictórico que melodia, harmonia e letra possuem, formando nitidamente a imagem de uma chuva que cai, mansamente, sobre uma roseira. Aqui, Tom Jobim usa sua profunda paixão pela natureza e seus conhecimentos da obra de Maurice Ravel – aquele mesmo que fez o “Bolero” – para criar sensações que concretizam os sentimentos que pretende passar.
O inacreditável desse disco é que as outras oito músicas que o compõe são tão boas quanto as duas mais conhecidas. A tristeza nunca foi tão bem definida quanto em “Para Dizer Adeus”. É uma música pesada, dolorosa: “Adeus/Vou pra não voltar/ E onde quer que eu vá/ Sei que vou sozinho…”. A voz de Edu Lobo, impecável, casa com o piano e ajuda a construir a atmosfera melancólica da canção. A voz de Tom, rouca e um pouco cansada, arrepia o mais frio dos seres humanos. O encontro vocal entre eles finaliza a canção mais emocionante do disco.
Falar de todas as músicas seria o mais justo, mas como o texto já está longo destaco “Moto-Contínuo”, uma declaração de paixão desnorteada: “Um homem pode ir ao fundo, do fundo, do fundo se for por você/ Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você/ Pode inventar qualquer mundo como um vagabundo se for por você/ Basta sonhar com você”. “Canção do Amanhecer”, “Vento Bravo” e “É Preciso Dizer Adeus” também são intocáveis como todo o resto do disco. Não existem reparos possíveis.
No geral, o que impressiona em Edu & Tom é o cuidado com todos os detalhes. Os instrumentos se casam com perfeição nos arranjos e cada nota e timbre é pensado arquitetonicamente. A genialidade e o domínio harmônico de Tom Jobim são ressaltados como nunca. Já Edu Lobo nasceu para cantar as músicas contidas nesse álbum. Ao escutar é possível perceber que a busca pela perfeição, aqui, foi contínua e obteve total sucesso. E é uma obra triste; de uma tristeza tão grande que se transforma em beleza. Quando se reúnem dois gênios com estilos diferentes e, ao mesmo tempo, com tantos pontos em comum o resultado só poderia ser o maior álbum de música brasileira de todos os tempos.
Nesse vídeo dá para sentir como foi o processo de gravação do álbum:
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Agosto 19, 2008 ás 12:41 pm |
Vergonhosamente eu só fui ouvir com mais atenção esse disco depois daquela noite de papo pós-show do Guinga no Sesc Vila Mariana, há uns 6 meses. Desde então, acho que já dei o dito-cujo de presente pra uns 6 aniversariantes de quem gosto bastante. “Porque tu foste pra mim, meu amor, como um dia de sol” é dos meus versos preferidos da obra-prima.
Bela iniciativa o blog novo. Abraço!
Agosto 21, 2008 ás 12:38 am |
Concordo em cada vírgula. E Canto Triste? É um disco que dá vontade de sorrir e chorar. Belo começo para o novo blog.