Arquivo de Agosto, 2008

A beleza da morte

Agosto 28, 2008

Antes de iniciar a leitura, aperte play no vídeo abaixo. Este post tem trilha sonora.

No último dia 11 de agosto, o estado de saúde do genial compositor baiano Dorival Caymmi, 94 anos, começou a se deteriorar, o que causaria sua morte cinco dias depois. Segundo a filha de Caymmi, o principal motivo da piora do pai – além, é claro, da idade avançada – tem relação direta com a ausência de sua mulher, internada desde abril e que havia entrado em coma pouco antes da morte do marido. Hoje, praticamente dez dias depois, a mulher de Caymmi, Stella, faleceu, aos 86 anos, após meses em coma. Para quem não sabe, o casamento dos dois já passava dos 68 anos e a harmonia e o amor entre eles eram impressionantes. É ou não possível enxergar beleza na morte?

Sonhos irrealizáveis I

Agosto 27, 2008

1 – Assistir a um show do Queen como banda de abertura e os Beatles como atração principal.
2 – Entender por completo os sentimentos que as mulheres me inspiram.
3 – Sentar em uma mesa de bar com Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues, Jaime Ovalle e Paulo Leminski.
4 – Ser um beatnik em plena década de 1960.
5 – Sentar sozinho em um bar minúsculo em Nova York, envolto em espessas nuvens de fumaça, tomar uma garrafa de uísque e assistir Charlie Parker, Miles Davis e Dave Brubeck Quartet ao vivo.
6 – Ver a minha avó fumando e falando merda pelo menos mais uma vez.
7 – Ler todos os livros, escutar todas as músicas e assistir todos os filmes e séries que eu gostaria.
8 – Que fossemos todos menos míopes.

*Vivo para concretizar os realizáveis. Se alguém sentir vontade, comente sobre seus sonhos que nunca serão reais.

Sobre livros e a curiosidade

Agosto 23, 2008

Revoltei-me de vez com a escola durante o segundo colegial. Era quarta-feira, estudava no Objetivo, em Jundiaí, resolvi deixar a aula de física de lado e ir para a biblioteca. Estava sentado na mesa, quieto, lendo “Crime e Castigo”, de Dostoievski, quando a inspetora do colégio chegou. Tomei uma das maiores broncas da minha vida e fui suspenso por um dia. Só fui retomar a leitura no terceiro ano da faculdade. Na época tinha 16 anos, não sabia direito quem era Dostoievski e que no futuro aquele seria um dos três melhores livros que eu leria em minha vida. Na verdade, apenas estava interessado no nome intrigante e na capa que me chamara atenção. Mas a inspetora, cruelmente, reprimiu a minha curiosidade.

Não sei por quais motivos sempre fui resistente ao desestimulo literário que a maioria das escolas impõem aos seus alunos. A aula de literatura – pensando hoje como jornalista e, se tudo der certo, futuro professor – era patética. Preocupada em preparar os estudantes para o vestibular, a professora colocava em tópicos os períodos e suas características: informações insossas, descartáveis e desprovidas de qualquer sentido. Decorar o que formou o estilo do Indianismo é tão importante e excitante para a formação de um ser humano quanto o ato de roer as unhas.

Muitos dos melhores alunos do colégio no passado hoje odeiam ler e não se interessam por nenhum tipo de arte ou manifestação cultural. A escola formatou a criatividade e matou qualquer tipo de curiosidade que existia dentro delas. A indicação de leituras incompatíveis com a idade e com a cognição em formação levou-as a se enojarem e se assustarem ao pensar em um livro. Ler “O Memorial do Convento”, de José Saramago, no primeiro colegial, por exemplo, é quase tão absurdo quanto empossar um garoto de sete anos como presidente de uma grande empresa. Aliás, acho muito pior. Uma empresa vale muito pouco se comparada aos pensamentos íntimos de uma única pessoa: prefiro uma empresa falida que um ser humano passivo.

Chega a ser engraçado pensar que a leitura é imposta no colégio como simples obrigação para o vestibular e que o famigerado “programa” se esqueça de orientar o aluno sobre o que um livro significa de fato. O prazer de ter a oportunidade de encontrar nas palavras de um autor os sentimentos que ele nutria na época em que vivia, encontrar beleza estética em parágrafos bem construídos e se envolver com personagens e situações que lhe fazem pensar na vida são descartados. Tudo isso não importa? Com 18 anos, mais do que nunca, o ser humano quer pensar na vida e não em um gabarito o qual até um macaco pode escolher entre a, b ou c.

Durante os três anos do meu colegial, a inspetora insistia em dizer que eu jamais chegaria a lugar algum com minha postura. Matava aulas constantemente, desafiava professores e discutia com colegas que só sabiam falar de carros e motores. Tenho que admitir que eu era um moleque: hoje prefiro o silêncio ou a ironia. Mas ela fazia questão de jogar na minha cara como eu seria um perdedor no futuro. No fim do terceiro ano, quando passei no vestibular, ela ligou em minha casa me convidando para posar para uma foto dos estudantes que entraram nas principais faculdades do País. Entre elas estava a minha, a Cásper Líbero. Não apareci, obviamente, mas desliguei o telefone com um sorriso maldoso e sarcástico no rosto. Apesar de nunca me esforçar para concretizá-la, a vingança sempre foi um dos meus pontos fracos…

A perfeição de Edu & Tom

Agosto 19, 2008

Afirmar qualquer coisa com certeza absoluta é quase sempre sinal de ignorância, mas me arrisco a dizer que o álbum Edu & Tom, gravado em 1981, é o melhor disco da história da música popular brasileira com sobras. Pelas minhas contas, só neste ano, escutei essa obra-prima mais de 60 vezes. Sei todas as letras, conheço as melodias, decorei até as harmonias. E, mesmo assim, não canso.

Para começo de conversa, um álbum que reúne em seu track list “Luiza” e “Chovendo na Roseira” já tem que ser observado como um fenômeno. A primeira, em minha opinião, é a música brasileira mais sofisticada e poética já composta. Parece uma valsa vienense com toques refinados do romantismo, mas prossegue popular até as raízes: difícil explicar. Alguns trechos têm alto valor poético, como o meu preferido: “Vem cá Luiza/ Me dá tua mão/ O teu desejo/ É sempre o meu desejo/ Vem me exorciza/ Me dá tua boca/ E a rosa louca/ Vem me dar um beijo/ E um raio de sol/ Nos teus cabelos/ Como um brilhante/ Que partindo a luz/ Explode em sete cores/ Revelando então/ Os sete mil amores/ Que eu guardei somente/ Pra te dar Luiza”. É um absurdo ou não é?

“Chovendo na Roseira”, por sua vez, deveria ser vista – muito mais que uma música – como um quadro pintado por notas musicais. É inacreditável o poder pictórico que melodia, harmonia e letra possuem, formando nitidamente a imagem de uma chuva que cai, mansamente, sobre uma roseira. Aqui, Tom Jobim usa sua profunda paixão pela natureza e seus conhecimentos da obra de Maurice Ravel – aquele mesmo que fez o “Bolero” – para criar sensações que concretizam os sentimentos que pretende passar.

O inacreditável desse disco é que as outras oito músicas que o compõe são tão boas quanto as duas mais conhecidas. A tristeza nunca foi tão bem definida quanto em “Para Dizer Adeus”. É uma música pesada, dolorosa: “Adeus/Vou pra não voltar/ E onde quer que eu vá/ Sei que vou sozinho…”. A voz de Edu Lobo, impecável, casa com o piano e ajuda a construir a atmosfera melancólica da canção. A voz de Tom, rouca e um pouco cansada, arrepia o mais frio dos seres humanos. O encontro vocal entre eles finaliza a canção mais emocionante do disco.

Falar de todas as músicas seria o mais justo, mas como o texto já está longo destaco “Moto-Contínuo”, uma declaração de paixão desnorteada: “Um homem pode ir ao fundo, do fundo, do fundo se for por você/ Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você/ Pode inventar qualquer mundo como um vagabundo se for por você/ Basta sonhar com você”. “Canção do Amanhecer”, “Vento Bravo” e “É Preciso Dizer Adeus” também são intocáveis como todo o resto do disco. Não existem reparos possíveis.

No geral, o que impressiona em Edu & Tom é o cuidado com todos os detalhes. Os instrumentos se casam com perfeição nos arranjos e cada nota e timbre é pensado arquitetonicamente. A genialidade e o domínio harmônico de Tom Jobim são ressaltados como nunca. Já Edu Lobo nasceu para cantar as músicas contidas nesse álbum. Ao escutar é possível perceber que a busca pela perfeição, aqui, foi contínua e obteve total sucesso. E é uma obra triste; de uma tristeza tão grande que se transforma em beleza. Quando se reúnem dois gênios com estilos diferentes e, ao mesmo tempo, com tantos pontos em comum o resultado só poderia ser o maior álbum de música brasileira de todos os tempos.

Nesse vídeo dá para sentir como foi o processo de gravação do álbum: